Dia desses, recebi o anúncio de um edifício lançado em João Pessoa. Coisa bonita, chamativa, fácil. Meia dúzia de cliques e o corretor já me aguardaria dia tal, hora tal. Por que não?
Dei os cliques e, chegado o dia, fui bater no local marcado. Cenário de Versalhes, tratamento de Luís XVI. Cortesias, salamaleques, sala vip, circo armado pra fazer de mim o Rei.
- Mas, e o apartamento? - perguntei.
- Isso vem depois.
Porque o agora era Versalhes. Era a pompa com que me envolviam na promessa de pertencer a um seleto clube, feito de spas, shoppings, lounges, piscinas e espaços gourmet.
- E o apartamento? - insistia.
- Se o senhor aceitar ver a proposta, marcaremos uma demonstração de duas horas pra falar sobre isso.
Aceitei. E veio a proposta. Quatro vezes e meia o preço do apartamento de mesmo tamanho que comprei oito anos antes, sem que os custos tenham subido sequer duas vezes.
Proposta impressa, ganhei o benefício de três noites com o travesseiro pra pensar. Usei apenas uma. No outro dia, agradeci, expliquei que aquilo não era pra mim, dei no pé.
Como tenho corrido sempre que vêm me oferecer gaiolinhas suspensas em clubes fenomenais, com nomes em italiano, espanhol ou francês pra fechar com ouro a breguice.
Uma sala onde caibam rede, piano e cadeira de balanço, um quarto pra mim, outro para as pessoas queridas em visita e mais um pra biblioteca, que se reproduz como coelha sadia.
É tudo que peço. Mas os corretores me dizem que os tempos mudaram, os espaços encurtaram e as pessoas agora vivem em público. O lar? Só pra dormir, comer às pressas e ver tevê.
Se é assim, paciência.
Hora de fugir da cidade, plantar milho e criar galinha em algum sitiozinho ameno, com casa avarandada, onde a vida seja espaçosa, pausada e lírica, com serestas e matinês.
*
*

Comentários
Postar um comentário