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Uma questão de vista


Jorge Amado é desses autores a que tenho ido por partes e de diferentes formas ao longo da vida. Talvez por ser vasta sua obra, talvez porque leio de modo muito bagunçado.

Nos anos 90, havia quase nada dele entre os livros lá de casa ou dos meus avós. Mas havia o romance completo de Machado. E foi o Bruxo quem um belo dia me pegou de jeito.

Assim é que só li, quando adolescente, o que a escola obrigou a ler. Tenda dos Milagres, Quincas Berro d'Água e não lembro se mais algo me atiçou as ereções e os desejos.

Já na faculdade, veio a greve. Greve longa, de meio ano, a melhor temporada destes meus anos jurídicos e judiciários, porque eu não tinha compromissos e só tratava de literatura.

Jorge Amado morreu por esses dias e algum jornal fez circular uma edição de Dona Flor. Arranhei umas páginas, não engatei na segunda e terminei me transformando com o Jesus de Saramago.

Os anos 10 já estavam no horizonte quando voltei ao baiano. Fui lá para o princípio. Mar Morto, Capitães da Areia e um Jorge Amado menos erótico e mais lírico e social se fez ver.

A coisa toda parecia boa, mas fazia um convite que eu não estava pronto a compreender. E nunca mais voltei ao homem. Até que Joselia Aguiar lançou uma biografia dele.

Comprei o tijolaço, estou lendo o bicho. 

Dia a dia, capítulo a capítulo, frase a frase. Sem pressa nem aperreio, vou tendo vislumbres de um Jorge Amado em carne e osso que agora parece fazer um convite que aceito.

Um convite ao risco, à aventura, ao amor, à rua. Um convite que de repente me deixou farto do velho Machado, do Borges blasé, e me animou a uma reconciliação com a vida.
___

Mas a crônica deveria contar outra história. 

Eu era criança quando vovô José ligou pra Jorge Amado.

É que vovó padecia de um mal degenerativo da retina e alguém lhe dissera que o célebre escritor tinha a mesma doença e havia sido curado por um médico em Goiânia.

Vovó ficou tão eufórica com os bons ventos baianos que vovô correu ao telefone, discou sei lá quais números e descobriu como ligar pra casa do Rio Vermelho.

Quem atendeu foi Zélia Gattai. Vovó e eu colados ao fone. A mulher agradecia o contato, mas o marido andava deprimido. Goiás fora uma falsa esperança. Ele ficaria cego.

E agora fico aqui matutando se não foi aquele balde de água fria que me deixou indigesto com Jorge Amado por todo esse tempo.

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