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Questão grega


(um lampejo)

Creio que foi Lima Barreto quem decretou a morte da Grécia Antiga nas letras nacionais. Talvez tenha pretendido menos ser juiz ou profeta que alfinetar Coelho Neto, para quem

"Ésquilo, comparecendo perante o Areópago, teria sido inevitavelmente condenado por crime de impiedade se Amínias, seu cunhado, precipitando-se, de onde se achava..."

caía bem no princípio de uma crônica do Rio de Janeiro em 1921.

É verdade que a Grécia Antiga já havia caído mortinha da silva bem antes disso, quando Alcibíades visitou o desembargador X... e não suportou a simples visão de um diferente - costume.

Mas não tiremos outro doce do bom Lima para dar mais uma glória ao grande Machado. Deixemo-lo estar como profeta. De uma profecia que não vingou, passado o vendaval modernista.

Pois não continuamos a encontrar a Grécia Antiga em crônicas de Nelson Rodrigues, poemas de Dora Ferreira da Silva ou traduções de Carlos Alberto Nunes?

E não continuaremos a receber sua visita enquanto houver departamentos de estudos clássicos, editoras de vergonha e escritores sem vergonha de dizer 'também somos herdeiros'?

Tudo isso me ocorreu dias atrás quando vi uma mulher na Grécia contemporânea justificar a um jornalista seu voto no não, dizendo: "nós somos a terra de Platão e Aristóteles; resistiremos!"

E eu fiquei me perguntando o que poderiam Platão ou Aristóteles fazer pela velhinha dois mil e trezentos anos mais jovem quando lhe faltar a pensão, ou por Tsipras diante dos credores de Atenas.

Na hora da crise, talvez Aristóteles, que trazia os pés no chão, possa mais que Platão, que via o bem com olhos de outro mundo. Ou seria, por isso mesmo, precisamente o contrário?

Mas então me dei conta de que a Grécia Antiga está tão longe da eleitora grega quanto de Coelho Neto. E, quando uma e outro se socorrem dela, fazem-no com os direitos da imaginação.

Sobre isso, ainda há muito o que conversar.

*

 Alcibíades, cuja segunda morte se deu no Brasil, 
durante uma estranha visita.

*

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