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Uma lição de vovô



Vovô José contava que, quando a primeira igreja protestante se instalou em Cajazeiras, o bispo católico reuniu o rebanho na missa dominical e decretou a morte civil dos estranhos no gado.

Que ninguém dirigisse a palavra aos hereges, fechasse qualquer negócio com eles ou lhes desse sequer o alívio de uma fruta na feira, de um copo com água, de um sorriso acanhado.

Sentado na segunda cadeira e morador do casarão cruzando a rua ao lado, o coronel Peba assistia a tudo com o silêncio e a pose de quem consentia a continuidade da velha e santa aliança.

Decreto baixado, missão confiada, partiram todos na paz que a ordem traz.

Até que, um belo dia, dois protestantes apareceram na vendinha improvisada que os meus bisavós mantinham na cidade quando a falta d'água ameaçava deixá-los sem mantimentos no campo.

Balconista, vovô entrou em guerra civil. 

Se cumprisse o veto, não faria a venda; se fizesse a venda, iria pro inferno. Mas também, o que aqueles outros tinham de tão diferente que não pudessem viver suas vidas como os demais?

Vovô apelou ao pai, que declarou o armistício. Fizesse a venda, quantas vezes e a quantos outros fosse preciso, que na hora da morte nossa senhora intercederia pelos pecados de qualquer um.

Assim foi feito. E vovô achou que aquele mundo era bom. Um bispo, um coronel e um pai para discernir o certo do errado, punir ou perdoar os degradados e resolver as causas difíceis.

Mundo que parece distante, mas existia a apenas 1/2 século e 400 km de onde e quando nasci. Mundo de muitos pais e quase todos os avós que se sentem estranhos nos mundos de hoje.

Como vovô, que apesar da estranheza, tinha lá sua cota de abertura à novidade e, numa de suas confidências, disse-me certa vez, entre o fascínio e a decepção:

- A gente não muda porque fica com aquilo lá dentro, que veio do pai e da mãe, mas os protestantes tinham razão. No futuro, não haverá papas e cada qual vai decidir conforme a consciência.

Certamente, estava na retaguarda das europas, mas não deixou de andar, por aí, na vanguarda dos nossos sertões.

*

Cajazeiras

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