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Sobre a maioridade


Agora que o atrevido processo legislativo foi instalado, podemos prever com certeza a regra: a vontade de Sua Cunha Real será feita, assim no côncavo como no convexo.

Mas que a justiça também se faça: pode-se acusar Dom Eduardo de ser dissimulado, não de inovador. Em matéria de redução da maioridade, o antecedente vem de longe.

Em 1840, tinha Dom Pedro de Alcântara catorze anos quando o deputado Montezuma apresentou à Câmara projeto para torná-lo maior e II na linhagem dos imperadores.

O projeto foi baleado e teria sido sepultado no Senado, não fossem os fatores reais de poder: os liberais estavam determinados a apear os conservadores da Regência.

Arregimentaram uma multidão às portas do Senado clamando pelo monarca, acertaram os ponteiros com os chefes militares e obtiveram um controverso "quero já" do menino.

Dentro de uma semana, em meio a agitação na rua e insultos ao governo regencial como uma camarilha prostituída, o Legislativo voltou atrás e o príncipe seguiu em frente. 

Cento e setenta e cinco anos atrás, acreditava-se que a redução da maioridade imperial solucionaria os graves problemas de então: a instabilidade na Corte e o separatismo nas províncias.

E se viu que esteve certo quem assim apostou. 

Mas um detalhe chama a atenção: durante quase meio século, o Brasil foi "presidido" por um rei cujas convicções pessoais estavam muito além do sistema político que o encapsulara.

Avesso à escravidão e entusiasta das ciências e das artes, Dom Pedro fora educado no melhor do espírito iluminista. Defendia a educação universal, a imprensa livre e as eleições limpas.

Mas não conseguia fazer sua agenda avançada, que incluía até a igualdade entre os sexos, tornar-se a do país. "Quem sabe não o serviria melhor noutra posição?" - perguntava-se. 

Enfim, fazê-lo maior trouxe a paz, mas não o progresso.

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