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A morte do rei


Eu estava pra lançar aqui o quiz: pelos próximos três anos, o chefe de governo no Brasil será Michel Temer ou Renan Calheiros? Mas veio o bom dia da Lava Jato e embaralhou a próxima rodada.

Saí por aí, então, no passeio do sábado. Clique aqui, download ali, topei com uma notícia de 1986 no New York Times: George V da Inglaterra contou com uma injeçãozinha do médico pra morrer apropriadamente.

Havia anos, o rei padecia de problemas respiratórios que, no começo de 1936, agravaram-se. O ar sumiu dos pulmões, a morte deu o ar da graça e a família chamou o médico: que ele não sofresse tanto.

Mais que isso: se tinha que morrer, que fosse a tempo de o anúncio sair nos jornais matinais, e não nos tabloides de fofoca vespertinos. Na mesma noite, alguém ligou pro Times: - segurem a edição!

Dali a pouco, uma enfermeira preparou um sossega-leão e George, afundado na própria juba, desejou-lhe a maldição antes de dormir para não ver a mistura de morfina e cocaína que o tirou da tomada.

No outro dia, os jornais sérios anunciaram a morte do rei como todos gostariam de ler: em paz, cercado pela família, com a rainha lhe segurando a mão. Nenhuma palavra sobre a eutanásia no sangue azul.

E as últimas palavras do rei, atribuídas: - como vai o Império?

Terminei de ler a história com um dó desgraçado da família real. Fazendo do ser modelo seu negócio, condenou-se às aparências e não pode dar a si própria o alívio da verdade sequer na hora da morte.

Mas é muito bem paga pra isso, além de muito pouco inocente. Sim, concordo com vocês. Mas, então, pergunto se não é o caso de sentir o mesmo dó de quem paga pra ter o modelo. Mão na consciência.

Não, não, tiremos o dó, que é coisa cristã. 

Os Windsor foram invenção inglesa, mas a ilusão é um - ( ) bem, ( ) mal, ( ) bem mal - humano. Graças a ela, temos passados ou tradições a conservar, futuros ou revoluções a fazer. 

Além de profetas, políticos ou poetas para nos dar uma injeçãozinha de adrenalina ou morfina, conforme o gosto do freguês.

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