Nevinha não tinha disfarces. No
primeiro dia de trabalho, quando riu, me olhou e disse o próprio nome,
eu já soube que havia ali algo que perturbava sem que eu soubesse como
nem por quê.
Ela passava rindo, rebolando, convidando ao que eu
não sabia ainda o quê. E os homens da família faziam cara de sério, as
mulheres faziam cara de quem saía do sério. E as crianças?
Bom, eu era criança e, onde havia interrogação, seguiam-se as
reticências. Comecei, pois, a ter mais sede que de costume, a beliscar
as panelas, a querer enxugar os pratos depois do jantar.
E da cozinha começaram a sair risadas, grunhidos, silêncios.
Vovó vinha fazer vistoria. "É só o menino aprendendo a rezar a ave-maria." Vovô vinha passar o pente fino. "É só o menino aprendendo a rezar o padre-nosso." E me chispavam pro quarto.
Quando a casa ficava vazia no meio da tarde, ela vinha me trazer o lanche. Bandeja vazia. "Tenho coisa melhor pra te dar!" - ela ria, me olhava e começavam as lições que a escola não me dava.
Não, não era uma Fräulein Elza. Era Nevinha mesmo, com o sexo à flor da pele e o noivo distante a dois mil quilômetros, praticando um contrato social tão antigo quanto entre nós renovado.
- Se tu fosse mais velho, ia ver do que eu sou capaz.
Certo dia, a casa entrou em reforma. Pedreiro pra cá, pintor pra lá, eu fui ficando em segundo plano. "Olha e aprende pra quando tu for grande." Eu olhava, mas queria mesmo era matar os rivais.
Uma vez, fiz um bolinho de terra molhada, caprichei na pontaria e acertei em cheio as costelas do mais atirado. Lá veio Nevinha, alarmada. "Treloso! Vem cá que eu sei o que tu tá precisando."
E eu ia, sempre que ela chamava. Irrequieto, pulsante. Até que um dia ela foi votar e só mandou de volta um bilhete. O noivo mandou chamar, ela ia casar. Ainda me ligou: "quando tu for grande..."
Mas eu fiquei grande, não voltei a vê-la e jamais deixei de me lembrar dela com ternura, com afeto.
E da cozinha começaram a sair risadas, grunhidos, silêncios.
Vovó vinha fazer vistoria. "É só o menino aprendendo a rezar a ave-maria." Vovô vinha passar o pente fino. "É só o menino aprendendo a rezar o padre-nosso." E me chispavam pro quarto.
Quando a casa ficava vazia no meio da tarde, ela vinha me trazer o lanche. Bandeja vazia. "Tenho coisa melhor pra te dar!" - ela ria, me olhava e começavam as lições que a escola não me dava.
Não, não era uma Fräulein Elza. Era Nevinha mesmo, com o sexo à flor da pele e o noivo distante a dois mil quilômetros, praticando um contrato social tão antigo quanto entre nós renovado.
- Se tu fosse mais velho, ia ver do que eu sou capaz.
Certo dia, a casa entrou em reforma. Pedreiro pra cá, pintor pra lá, eu fui ficando em segundo plano. "Olha e aprende pra quando tu for grande." Eu olhava, mas queria mesmo era matar os rivais.
Uma vez, fiz um bolinho de terra molhada, caprichei na pontaria e acertei em cheio as costelas do mais atirado. Lá veio Nevinha, alarmada. "Treloso! Vem cá que eu sei o que tu tá precisando."
E eu ia, sempre que ela chamava. Irrequieto, pulsante. Até que um dia ela foi votar e só mandou de volta um bilhete. O noivo mandou chamar, ela ia casar. Ainda me ligou: "quando tu for grande..."
Mas eu fiquei grande, não voltei a vê-la e jamais deixei de me lembrar dela com ternura, com afeto.
*
Lendo depoimentos femininos na recente hashtag sobre o assédio, percebi
como a descoberta do sexo está associada à violência por parte do homem
e à culpa por parte da mulher.
Lembrei-me, então, de Nevinha e
de como o que houve entre a mulher e o menino que nós éramos só me
deixou a impressão de que os padres e os parentes estavam errados: o
corpo é bom.
E fiquei me perguntando o que podemos, precisamos
fazer para que mulheres e homens amadureçam experimentando o sexo com
beleza e liberdade, guardando suas Nevinhas no coração.
*
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