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É tudo, tudinho

Cadarço torado, vou às antigas Brasileiras, que têm um nome não muito novo ao qual nunca me acostumei, e saio de ponto em ponto até parar na única em que o dono diz: - tem sim sinhô.

E são tantas as cores e tantos os tamanhos que me espanto ao saber que o meu é modelo antigo, fora de circulação. Penso na ciência dos sapatos, imagino o soneto dos cadarços,

mas é de crise que seu Antônio fala:

- Cheguei a apurar duzento por dia, mas (repare mermo) hoje inteirei vinte com essa venda e já tou me dando por satisfeito.

Pergunto se tem tido dificuldade pra pagar as contas, se espera a recuperação pra logo, se atribui a culpa da situação ao governo federal e se vai se revoltar antes que o caldo entorne.

- Olhe, é tudo, tudinho culpado, mas revoltado mermo eu tô é com as fábrica, que tão me deixando sem sortimento.

*

Saio de um encontro e, suando pelas canelas, pego um táxi. Falta um mês pro verão oficial, mas ele já tomou posse de todos os espaços e entrou em exercício irregular antes do tempo.

O rádio está ligado e alguém esbraveja na onda. O taxista talvez me considere interessado nos gritos e aumenta o volume - para que eu me refugie deles melhor. Reginaldo, o motorista toma a palavra:

- Tão pensando que me enganam! Tá na cara que a prisão do senador é só pra tirar a atenção da gente da Petrobrás.

Eu lhe pergunto se uma coisa não tem relação com a outra, se a prisão do líder do governo não complica ainda mais o próprio governo e se não há um bom sinal de punição dos culpados.

- Olhe, é tudo, tudinho misturado, e eu mesmo não confio mais é em nada, em ninguém, muito menos na minha sombra.

*

Não sei por que volto pra casa coçando os olhos pra rever Vestígios do Dia.

*


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