Dia desses, voltei a visitar O Século
de Augusto. Ia em busca da passagem em que Pierre Grimal atribui a paz
entre Roma e Pérsia à consciência que cada império tinha de que o outro
era o seu limite.
Não encontrei a passagem e terminei me perdendo
da crônica que tramava para cutucar Itália e Irã depois do episódio dos
nus cobertos. Melhor assim! - diria Gerusa, a sábia de Santa Terezinha.
Se melhor ou pior, não sei; mas encontrei o que não procurava: uma cutucada em Alexandre Vidal Porto.
Pois não veio o doutor Alexandre com um papo de que os brasileiros não merecemos o Carnaval de 2016 por causa da violência, da zika e de tudo mais que, palavras dele, desfaz o país?
Ai, meu bom Alexandre!
Quando foi que você começou sua conta de merecimentos? Quando D. Pedro II se instalou em Petrópolis para fugir dos mosquitos cariocas? Ou logo após a abolição da escravatura?
Mas alguém aí pergunta: onde entra Pierre Grimal no chamado à ascese coletiva do doutor Alexandre?
Naquele passagem em que ele estuda o mecenato e, em palavras que eu não colocaria mais doces, diz que a lírica de Horácio lembrava aos romanos que a vida continuava, apesar da guerra civil.
Se Grimal tem razão, quem seria o nosso Horácio senão o Carnaval? A única festa comum de todos os brasileiros, a nos dizer que, mesmo com toda lama, a gente vai brincando.
Mas se entende o doutor Alexandre e quem com ele faz coro. Mesmo que, depois da compreensão, venha o susto.
Afinal, paira nos quatro cantos essa inquietude paradoxalmente brasileira de tomar, de uma vez por todas, o caminho da ascese rumo ao espírito do capitalismo.
Mais cedo ou mais tarde, cobriremos os nus.
Enquanto isso, brinquemos o Carnaval. Não calemos o que de melhor temos - a percepção na carne do que já dizia o Tranio de Shakespeare, quando éramos infantes de Portugal:
No profit grows where is no pleasure taken.
*
Tranio e Lucentio n'A Megera Domada.
*

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