Trinta e dois anos depois, cedi à pressão.
De repente, eu me vi com uma célula tão viva na mão que, se for a Florença e passar em frente à Academia de Belas Artes, vai fazer pose de estátua, franzir a testa, olhar de banda e me dizer: fala, homem!
Até anteontem, meu papo com a mocinha da loja de celulares era bem rápido: o mais barato, com teclado pra discar e resistência a queda, por favor. Nesse passo, mantive a sanidade enquanto pude.
Mas aconteceu de - quanto vacilo! - eu começar a padecer de interesse por fotografias. Meio louquinhas, é verdade, só pra ensejar legendas ainda mais birutas. Mas da foto à boa câmera, bastou um clique.
Mal tirei o bichano da caixa, a primeira queda. Mal o levei pra colocar coleira e focinheira, o segundo baque. E ainda nem havia pagado a primeira prestação quando quase o atirei no carro da Emlur!
Mas vocês logo verão que o motivo da ira é justo e não me recomendarão sequer meia hora no caroço de milho assado.
O caso foi o seguinte. Carreguei o animal na tomada, instalei a alma, digo, o chip na sua cintura e, quando o liguei para alimentar o estômago com meus contatos, o danado veio cheio de vontades.
Primeiro, atualizar o sistema Android. Mas como, se acabei de iniciar o peste? Ele não ouviu e seguiu adiante. Depois, atualizar Google disso e daquilo, sem que eu tivesse sequer tirado a primeira lasca.
Uma piscada, dois suspiros e um gato virtual pulou na tela inicial, pedindo leite, conversa e dengo. Ora, seu... vá ao robô que o pariu e suma daqui! Mas o gato, miau-miau, nem aí. Liguei pro hospício.
Não deu tempo nem de a camisa de força chegar e todos os programas e aplicativos já estavam sendo atualizados outra vez. Eu vi o futuro: instantâneo, incessante, inovadólatra. Quis chorar, mas pensei.
E no terceiro suspiro, saí à rua, visitei o antiquário e voltei pra casa com um telefone lord analógico, velhinho em folha. Pluguei na tomada, espreguicei no sofá, inspirei a brisa das cinco e fechei os olhos:

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