Pular para o conteúdo principal

Novos, cambaleados ou recauchutados princípios para uma sabedoria da moderação, seguidos de estranha advertência




1. A moderação é uma dízima periódica complicada, que resulta da divisão quântica da ordem pelo impulso.

2. Como a ordem e o impulso sopram em variadas direções, a dízima desce, sobe, quebra e gira mais que biruta de aeroporto.

3. Quem orienta o vôo por essa biruta, há de reconhecer - nem que seja por intuição - os picos e as depressões do caminho.

4. Nos jovens, a moderação pode ser um desvio de conduta, ajustável com noites de insônia, carnavais e tropeços na rua.

5. Nos que entram em anos, ela pode tornar-se um ajuste de conduta: soma nutrientes, elimina toxinas, areja o terreno.

6. e permite que finalmente se cultive o jardim. Dá-me o jardim, senhora dona Gaia; mas não agora! Ou seria justo agora?

7. A linguagem preferencial da moderação é o humor espirituoso, que permite adiar a verdade sem antecipar a mentira.

8. Oportunismo, hipocrisia e espertezas tais não se confundem com a moderação; são ordem em pele de impulso, e vice-versa.

9. Também o cinismo e o ceticismo não se confundem com a moderação; mas esse princípio ainda está em construção.

10. Dizem que a moderação tem ponto G, sensível por quem já escapou de se aniquilar por excesso de ordem e/ou impulso.

11. Sem indivíduos moderados, as sociedades de homo sapiens entrariam em pane. Só com eles, não sairiam do canto.

12. Teorias, éticas e doutrinas implicam não só sua coerência, mas também sua contradição. Nem a moderação escapa dessa.

Estranha advertência

Máximas, princípios e aforismos são textos capciosos. Leia com moderação, dialogue com sagacidade e só os siga literalmente em caso de preguiça, urgência ou insanidade.

*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Sobre um idílio

Já li de tudo um pouco: que 'Me Chame pelo Seu Nome' é uma história de amor, um drama gay ou a celebração nostálgica dos anos 80. Só não li o que o filme me pareceu. Imaginem vocês. A esposa de um professor universitário herda uma casa de campo na Itália e o casal passa as férias de verão lá com o filho de 17 anos, um aluno americano e amigos em trânsito. E o que eles fazem? Tomam banho de sol, lêem poesia, degustam frutas, tocam piano, passeiam pelo campo, discutem filologia, mergulham no lago, catalogam achados arqueológicos, fazem sexo. Tudo se desenrola sem pressa e com brio. A televisão é um detalhe no canto da parede, o telefone é um aparelho preso à tomada e a cidade mais próxima está fechada para o ócio. O cenário político da Itália dos anos 80 vem à tona e causa certa inquietação, mas o que empolga os convivas é a descoberta de restos de estatuária antiga no mar ali perto. Sim, é um filme que fala de coisas antigas, tão antig...