Se a experiência é o fundamento do conselho,
tenho pouco conselho, já que pouca é a experiência. Mas uma tenho, se
tenho alguma; e o conselho, se não é muito, há de ser alguma coisa.
Eis o conselho: que ninguém se mude para Manaíra, em João Pessoa, sem
ter pelo menos um quarto de dúzia de conhecidos zelosos. Passo à
experiência e deixo a vocês que me digam se passa o conselho.
Voltei a viver em Manaíra pela quarta vez em nove anos.
Há por aqui como que uma voz me dizendo: vem, e fica. Juro que a ouvi dia desses naquela relaxada pracinha que estragaram com o nome de desembargador sei lá qual.
Há por aqui como que uma voz me dizendo: vem, e fica. Juro que a ouvi dia desses naquela relaxada pracinha que estragaram com o nome de desembargador sei lá qual.
Vou cortar caminho pela vez de agora. Deixo as outras três para outras três crônicas.
Quando vim conhecer o apartamento, o senhorio alertou. O bairro é bom,
as ruas tranqüilas, mas você sabe né, semana passada invadiram o
edifício ali do outro lado da rua, estamos todos sujeitos.
Primeiro amigo zeloso, de honestidade mais que comprovada. Fosse eu vovó
Lozinha, não lhe teria alugado o apartamento. Assim como sou,
paciência. Os passarinhos da praça parecem cantar no quarto.
Vão os ladrões ao diabo, ou meu atirem sozinho pra ele.
Quando saí pra fazer a feira, a atendente do mercado alertou. Voltar a
pé, com esses pacotes na mão?! Só se quiser ficar sem a comida. E olhe
lá, viu! Semana passada, mataram um homem aí, na calçada.
Eu lhe
teria oferecido três taças de vinho aqui em casa se ela tivesse vindo
comigo, pra afugentar os latrocidas. Mas minha fome era urgente e o
expediente dela, até o fim do dia. Voltei só, trêmulo, vivo.
Aí,
João Matias me chamou pra bebericar. O táxi chegou, dei boa noite e o
velhinho disparou, em bom carioquês: isso aqui vai de mal a pior, se o
sujeito entra no carro com cara de malandro, já mostro o trabuco.
Não vi o trabuco, nem respirei aliviado, que as histórias sobre Manaíra
foram tantas e tais, que desejei voltar aos meus oito anos, quando tudo
o que havia nas tardes fagueiras de Campina eram trombadinhas.
Ao fim do primeiro mês, vi-me trancado e trancafiado em casa, com medo
até de ouvir a rua. Até que numa quente noite, fui acordado por uns
ruídos na praça, saltei da cama pra janela, já gritando: socorro!
Uns meninos brincavam na praça, imunes ao terror e às notícias, imersos
na bola e no cesto, irradiando aquela despreocupação de quem sequer
sabe que a vida passa e, mais que ela, muito conselho.
*
Olá Thiago! É Érika Catão! Uma prima me compartilhou pelo zap um excelente texto seu e acabei achando este maravilhoso blog. Como estou chegando agora, perdoe se eu estiver dizendo o óbvio, mas você PRECISA publicar estas crônicas. Vou ficar acompanhando!
ResponderExcluirÉrika, quanta satisfação! Seja bem vinda. E obrigado pela atenção.
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