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Meu querido Juscelino Kubitschek


Vovó Lozinha cultivava uma lista de defuntos queridos, pelos quais ela rezava diariamente antes de dormir. Quando eu morrer, ela dizia, a patota vai estar à minha espera no céu.

Era uma lista que começava bastante doméstica, com pais, avós, tios e primos, avançava para amigos e agregados e daí ganhava a cidade e o mundo. Admitia até terceirizações.

O parente de alguém muito chegado morria e o sujeito vinha pedir a vovó que rezasse pela alma do finado, pessoa boa e merecedora da graça divina. A alma logo entrava pra patota.

Um artista de tevê batia as botas e uma nora ou um neto pedia a vovó que rogasse a Deus pela salvação daquela alma querida. E assim Zacarias e Mussum entraram na lista.

Getúlio Vargas era o finado de número 50. Nunca esqueci isso porque, quando recitava o nome do velho, vovó completava com um graciosíssimo "os primeiros cinquenta".

Como aluno e escriba de vovó, a certa altura me coube a tarefa de anotar os nomes. A memória já confundia a ordem das almas; era preciso salvar, além delas, a própria lista.

Os nomes eram ditos secamente. Só o nome, nada mais. 

Um deles, porém, merecia um discreto e curioso toque de pessoalidade. Quando chegava sua vez, Juscelino era "meu querido Juscelino Kubitschek". Isso me intrigava em silêncio.

Anos depois, fiz amizade em João Pessoa com uma senhorinha que, um belo dia, saiu de férias. Quando voltou, eu perguntei do passeio. Por onde tinha andado, afinal? 

- Fui a Diamantina, fui ver a terra do meu querido Juscelino Kubitschek!

Tremi de emoção. Arrepiado, lágrimas nos olhos. Pisquei uma, duas, três vezes para ver se não era vovó quem tinha voltado à vida e recitava diante de mim sua lista do além.

- Dona Ieda... essa expressão... era a mesma que vovó usava...

- Ah, meu filho, não duvido. Olhe, só quem viveu aquele tempo sabe do que estou falando...

E, de repente, aquela listinha de vovó, que parecia ser nada mais que uma ladainha fúnebre, reconfigurou-se na minha memória como um disfarçado canto de esperança.

*


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