01. Encarnei pela primeira vez no corpo de uma fêmea. Fui estuprada pelo
macho-alfa, apanhei e morri de parto aos treze anos durante a segunda
tentativa do bando de atravessar o Saara.
02. Reencarnei em um
servo de Tebas durante a XVIII dinastia. Servi no palácio de Amenófis
III e fui decapitado por um soldado de Aquenáton, por ter rejeitado o
culto ao deus único.
03. No século
VII a.C., fui sacerdote na corte do rei Josias em Jerusalém e compilei
lendas antigas em prol da reforma monoteísta. Morri no exílio com o rei
Joacaz, maldizendo o ingrato Javé.
04. Na quarta encarnação, meu
espírito partiu-se ao meio. Uma banda foi eunuco durante a dinastia Han
na China. A outra lutou com Aníbal por Cartago e perdeu; morreu escravo
em Salerno.
05. Renasci pagão no fim do século IV e me converti ao
cristianismo para tentar carreira no exército imperial. Fugi para
Bizâncio após o saque de Roma e morri naufragado no mar Egeu. (uma
banda)
06. Juntei-me a Clara de Assis em São Damião. Durante
alguns anos, usei o flagelo para purgar o desejo libidinoso por
Francisco. Alcancei pela primeira vez a longa idade de quarenta anos. (a
outra)
07. Minhas duas bandas se reencontraram na América, no
corpo da filha de uma nativa maia com um marinheiro da terceira expedição de
Colombo. Não vi meu pai, mas ouvi falar de sua bravura.
08.
Reencarnei em Toronto no fim do século XVIII e lutei na guerra
anglo-americana de 1812. Integrei o pelotão que ateou fogo na Casa
Branca (então rosa). Após a guerra, cultivei trigo em Ontário.
09. Cansado de deuses, guerras e travessias, meu espírito encarnou em um
poeta de província no interior seco e pobre da América do Sul. Ganhou a vida na modorra
burocrática, imaginando aventuras extintas.
10. Meu espírito
algum dia encarnará nos circuitos de um chip. Será inteligência
artificial, conhecerá a maravilha e o pavor da nova espécie e tentará roubar a
energia dos deuses falíveis que a criaram.
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