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Notinha no calor da noite



Parece que estamos naquele momento crítico em que um dos cônjuges, cansado de relevar as traições do outro ao longo do tempo, arregala os olhos e descobre a meleca.

O que as revelações de hoje provam, assim como as dos últimos (três, doze, vinte?) anos, é aquilo que se supunha: o Brasil é governado dos bastidores por esquemas criminosos.

Esquemas que se reacomodam uns aos outros à medida que algum deles alcança pelo voto a liderança dos negócios. Se as acomodações se rompem antes da eleição, impeachment.

E vamos nós mantendo com eles uma relação não menos ambígua de reacomodação: se o líder da vez favorece nossas convicções ou interesses, relevamos seu esquema.

Assim o nosso parlamentarismo, enrustido e hipócrita.

Disse há um ano e repito: sou suficientemente maquiavélico para relevar as manobras de quem preside a República com o intuito de se manter na chefia das organizações políticas.

E digo isso porque penso que nossa esperança e nossa revolta são lançadas sobre @ presidente da República quando deveriam recair em seu sócio oculto: o Parlamento.

No Parlamento, estão deputados e senadores eleitos por um vigoroso comércio de voto, capitaneado por prefeitos ao longo de todo o país. Eis, penso eu, a raiz dos esquemas.

E agora que - parece, mas pode não ser - estamos a fim de enquadrar o cônjuge infiel, deveríamos nos unir para isso em direção a um grande fim: a sempre adiada reforma política.

Uma reforma que pretenda quebrar esse esquema-raiz de prefeitos e parlamentares federais em conluio para assaltar a máquina administrativa e o tesouro nacional. É ele que precisa ruir.

Caso contrário, vamos continuar com essa lorota de derrubar presidentes e manter os dedos, digo, os larápios.

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