01. Vovô Toinho aconselhava: organize sua vida até os 30, que depois disso vai tudo ladeira abaixo. Fui um adolescente impressionado por esta fatalidade. Depois me dei conta de que, quando vovô nasceu, a esperança de vida do brasileiro nem chegava aos 40; quando ele alcançou os 30, ela mal passava dos 50. Em 2020, o conselho de vovô está caduco.
02. Trabalho desde os 17 anos. Fui professor e advogado. Sou burocrata. À beira dos 40, estou farto de reuniões, processos e sistemas. Gostaria de ser Montaigne e me retirar para uma vida entre flores e livros no campo. Sem bichos, por favor. Mas as economias não me sustentariam por mais de um ano. E a situação previdenciária só piora.
03. Publiquei 4 livros de pouco valor artístico e ainda menos leitores. Sonhei com a glória literária e, após muita psicanálise no juízo, admiti e assentei que tudo não passou de uma extensão de delírios pretéritos. Agora, só escrevo crônicas e me sentiria realizado numa chácara em Bananeiras, com marido, vitrola e livros.
04. Falando em crônicas, são os únicos textos mais ou menos lidos que escrevo. Sempre me pedem uma, sempre me estimulam a reuni-las em livro. Mas não as levo muito a sério, acho coisinha de valor ainda menor que os poemas e contos cometidos. Peidos. Nada mais que isso. Peidos com que me libero de congestões nas entranhas.
05. Tentei voltar à universidade, mas não me enquadrei no sistema de aulas, provas e escrita científica. Sou um leitor caótico, interessado em tantos assuntos que nunca consigo focar em um só. Acordo em Era Vargas e vou dormir nas mitocôndrias. Formar um ponto de vista a partir do qual penso e ajo. É para isso que leio. E isso não dá uma profissão.
06. Em 4 anos, o país ficou ainda mais agitado. Os amigos à direita continuam achando que sou um maluco de esquerda e os à esquerda, que sou um canalha de direita. Hoje, eu me vejo como um liberal na linha de Norberto Bobbio, Isaiah Berlin ou José Guilherme Merquior. Nada a ver com essa alcatéia que está no poder.
07. A propósito, são grandes os equívocos nas referências correntes ao liberalismo. Na verdade, há muitos liberalismos e nem todos são antiestatistas. A liberdade, como a entendo, é uma construção política que se faz por meio de instituições públicas. E polícias, parlamentos e tribunais não bastam para isso. Precisamos de hospitais e escolas também.
08. Aliás, mais uma palavrinha. Esse papo de liberal na economia e conservador nos costumes é conversa mole pra boi dormir. Um liberal autêntico há de compreender que, a essa altura das Histórias, a liberdade não pode ser o privilégio de uma casta, defendido a ferro e fogo contra a exclusão de outros grupos. Se ainda não entende isso, leia Bobbio.
09. A pandemia me trouxe de volta à casa materna, por um tempo que há muito eu não passava aqui. Quase 3 meses e alguns velhos conflitos sendo sanados. Para celebrar este retorno proveitoso a um passado atualizado, decidi replantar o jardim embaixo da janela de minha mãe. A população de casa ficou até mais alegre com isso.
10. Refugiei-me do covid-19, mas o aedes aegypti me picou. No segundo mês do isolamento social, tive dengue, de que resultou uma hepatite medicamentosa. Resultado: sete idas ao hospital, em companhia de outros dengosos ou... gripados. E se, fraco como estou, pego o corona? Eu pensava e temia não a morte, mas o pouco saldo que legaria.
11. Em 4 anos, nasceu, andou e falou uma sobrinha. As pessoas me tomam por um homem sério e de pouco riso. Mas tenho certeza de que, com Mariana, rio sem parar. Ontem, soube que ela disse: "vovó, gosto de ir aí quando Thioago tá, porque ele faz aqueles olhos grandes pra mim." Corrijo o item 10: ser tio já dá um senhor saldo.
12. Machado de Assis foi o grande mestre de meu contato com a literatura, mas ando meio cansado daquele tom cético e pessimista que termina nos desarmando para a vida. Depois de anos lendo gente morta, decidi vir para o mundo dos vivos e tenho me maravilhado com muita coisa. Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, é minha mais nova paixão.
13. 23 anos depois, passei a considerar a interrupção da psicanálise. Hoje a vejo como a primeira grande filosofia da contemporaneidade, com teoria, ética e salvação inclusas. Como todos os outros sistemas de pensamento que visitei, este tem um prazo de validade para cada indivíduo. Sinto que chegou a hora de partir, mas... para onde?
14. Menino católico criado por vó, toda minha formação se deu para a conquista do Céu. E o corpo, morada de Deus e templo do Espírito Santo, foi durante anos um instrumento de culpa e pecado, destinado ao pó. Hoje, vejo o corpo como a morada da mente e uma casa que deve ser bem cuidada e ornada, sem danação à espera. Com muito desejo.
15. Dia desses, relendo as cartas de Paulo de Tarso, topei com um trecho em que ele equipara homossexuais a marginais e bandidos. Lembrei de uma tia que falava mais ou menos a mesma coisa e tremi. Entendi que, durante 30 anos, temi e adiei o encontro comigo mesmo por ser cria de uma cultura entorpecida pela repressão paulina.
16. Parentes e amigos me vêem como um guardião de velharias. Vira e mexe, livros e discos empoeirados pintam aqui na porta. Sua cara! Até que me empolgo com a imagem e já considero buscar cursos sobre restauração de livros. Quando tudo for só eletrônico, abro um sebo-ateliê e mantenho o sopro de uma tecnologia morta.
17. Admiro muito a turma do cinema, uma arte que não se faz em completa solidão, como a literatura. E uma arte audiovisual, do futuro. Os amigos do cinema viriam logo com contra-argumentos financeiros e políticos a esta romantização. Mas um último sonho há de se permitir a uma pessoa entrando em anos e o meu é este: virar documentarista.
18. Agronomia, gastronomia, cinema. Três cursos que eu faria depois dos 40. Mas há tantas outras coisas igualmente interessantes a aprender que não sei por onde ir. Se acordasse amanhã e tivesse que decidir, eu me faria aprendiz de pedreiro, encanador e pintor de paredes para ter o prazer de, um dia, erguer minha casa com as próprias mãos.
19. (Ia escrever algo, levantei para tomar água e urinar, esqueci. Será a idade chegando? Por sinal, alguma coisa já mudou depois dos 30. A mente é menos rápida e o corpo mais lento do que 10, 15, 20 anos atrás. Mas, claro, tudo isso é desprezado por quem é mais velho e considera que, com sua idade sim, é que as coisas ficam diferentes.)

Comentários
Postar um comentário