Por esses dias de muito iFood e pouca praça de alimentação, foi o entregador quem se encheu da falta de campainha no muro e esbravejou: que custa facilitar meu trabalho, gente?!
Custa pouco, meu senhor. Mas custa sempre. Esse muro já viu campainhas dos mais variados formatos, volumes e timbres, mas nenhuma perdurou mais que o tempo do ladrão.
Assim é que cansamos de fornecer mercadoria gratuita à feira de roubos & furtos e, não sem remorso, deixamos carteiros, entregadores e agentes da Sucam ao sabor dos pulmões.
O bom homem aceitou a explicação e aproveitou para esticar a conversa. Falou, ou melhor, sussurrou que não desce da moto sem antes dar uma boa espiada nas copas das árvores.
- Nunca se sabe, né? Vai que o ladrão lá está de esguelha, esperando a hora de dar o bote na presa. E o burro de carga aqui, já sem eira nem beira, fica sem besta nem frete!
O ladrão nas árvores. Taí uma hipótese que nunca considerei, apesar de não faltar engenho aos ladrões que por aqui passaram nos últimos trinta anos. Muitos e até bons ladrões.
Quando chegamos à casa, o muro era baixo, não havia cerca elétrica e o portão da rua ficava apenas encostado, sem tranca. Não que os tempos fossem outros. Ladrão já havia.
Mas os temores eram poucos.
Os ladrões entravam e saíam numa boa. Certa vez, cheguei a pegar um deles com a mão na bicicleta. Saiu correndo, pra desgosto do meu pai, que tinha armado a cilada. Em vão.
Passamos a tranca. E os ladrões tiveram que pular o muro.
Outra vez, estava em casa sozinho, mergulhado no Requiem de Mozart. Dia de ira / aquele dia / quando os séculos feitos cinzas / segundo Davi e Sibila - que nem dei pelo intruso.
Quem o notou foi um passante, que gritou: pega ladrão!
Tamanho foi o susto que o desinfeliz desembestou muro acima, rua afora e aqui deixou, além do furto tentado, uma imagem sacra, capada de uma mão e lascada nas pernas.
O santo nunca foi identificado, mas o deixamos exposto por anos na área de serviço e o tomamos como padroeiro - muito do incompetente, por sinal - dos ladrões. O entregador riu.
Mas só me deixou avançar no relato até o ponto em que, passada a cerca elétrica sobre o muro, os ladrões tiveram que se contentar com campainhas e espadas de São Jorge.
- Então, o negócio vai mal pra eles aí dentro?
- Pelo visto.
- Se é assim, vou seguindo. Que de ladrões bastam patrões e governos sobre o suor do meu rosto. Se tive sorte de não cair mais um da árvore, não arrisco que brote outro na esquina.
Foi-se um homem e aqui deixou outro, meditabundo e esquecido da pizza, quase tentado a arriscar, nas horas vadias, um tratado sobre esta verdadeira instituição nacional: o ladrão.
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