Pular para o conteúdo principal

Com que causa eu vou



 Uma visita ao Facebook, duas ou três clicadas nos portais - e já se tem um balaio transbordando de boas causas a que dedicar a vida, o texto ou a conta bancária.

Mas anteontem recebi a edição n. 19 da serrote, ontem li o ensaio de John Jeremiah Sullivan sobre o ensaio e fiquei com algumas palavras urgentes a dizer sobre um e outra.

Interessante a sugestão de Sullivan: a França pariu o ensaio, mas a Inglaterra criou o ensaísta. Sua partida: os Essayes of a Prentise, de James I. Sua trilha: George Buchanan, mestre de Montaigne e do rei.

Ainda mais interessante o desdobramento da argumentação: cada qual deu partida ao ensaio em uma acepção própria, ainda que próximas - exame (no caso do francês), aprendizado (no caso do inglês).

O texto não é conclusivo e a prosa é para degustação, como convém ao gênero. Não sei se a idéia de Sullivan é original, mas é nova para mim: pesar e tentar não querem dizer a mesma coisa na torre do ensaio.

Nos próximos anos, tentarei descobrir aonde isso pode levar. Aliás, diria que o bom ensaio é como o passe bem feito no futebol: não termina em gol, mas dá a quem o recebe a chance de avançar na jogada. 

As outras palavras que quero dizer são sobre a serrote - uma revista de qualidade, dedicada a um primo pobre dos gêneros, publicando de contemporâneos abaixo dos 40 a defuntos acima dos 400 anos.

Devemos este diamante a uma mina rara do país: os Moreira Salles. Não é a cada geração que surge no Brasil uma família rica com a consciência cultural com o alcance desta.

Os Moreira Salles transformaram suas próprias casas no Rio e em São Paulo em centros culturais e instituíram um fundo bilionário que promove o mecenato:

- exposições de arte, acervo fotográfico, guarda de documentos de escritores falecidos, divulgação musical e literária e uma revista que dá vez e voz à palavra medida, ao juízo ponderado...

... enquanto o país se radicaliza ou se liquefaz, reproduzindo uma cultura em certos aspectos midiática rasteira.

Há mortos no Nepal, feridos em Curitiba, açude seco em Boqueirão; mas a serrote aqui ao lado me sopra no ouvido que a longo prazo precisamos mesmo é de uns dez Moreira Salles por quilômetro quadrado.

*

A torre de Montaigne

*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias. Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários. É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião. Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores. Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha. Se o presente justifica-se a si mes...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...