Vento fresco e silêncio a passarinho - eis o prato servido pelas
manhãs em Cabedelo. Mas há quarenta dias me mudei e agora são as de João
Pessoa que me servem - suor no sovaco, buzina no ouvido.
Vencida a quarentena, posso falar do que me vai pelos miolos.
Aliás, comecei resmungando, mas quero avançar sorrindo. Em Cabedelo,
fica-se refém do carro: nem tudo está ao alcance dos pés e as ruas são
de tal forma quietas que se escondem e amedrontam.
No Cabo Branco, há efervescência nas calçadas e um aluguel de bicicletas a dois quarteirões do meu abrigo. Coloquei o par de tênis pra trabalhar duro e até aposentaria o carro, não fosse o expediente a dar.
Mas nem tudo é paradisíaco neste inferno de quase 40 graus.
Apesar de gasta, a metáfora do inferno é necessária. Além do calor, há um problema do cão. Até agora, não se passou um dia sem que eu tenha botado os pés na rua sem topar com cachorros por todos os lados.
Há os vadios, à espera de sacos de lixo por comida e rodas de moto por diversão; há os domados, à espera de um segundo de distração de quem lhes controla a coleira para farejar a liberdade em pernas alheias.
Todos me apavoram mais que o diabo o faria, se existisse. Outro dia, saí à noite em busca de brisa e vi avançar em minha direção um desses bichos, puxando o dono pela corrente - ambos com a língua pra fora.
Desviei o caminho.
O cachorro do dono percebeu e quis argumentar comigo. Não tenho garras de felino nem caninos de lobo, portanto não discuto com um homem armado. Teria trepado na árvore, se tivesse braços de macaco.
Segui adiante e às pressas, tremendo e pensando. Meses atrás, desejei publicamente um canil fétido e solitário a um cachorro que me assustou na praia. Fui severamente repreendido.
- Por que não poupa o animal inocente e reclama do animal irresponsável? - questionaram.
Porque o homo sapiens é meu semelhante; em suas falhas, vejo as minhas - e me disponho a compreender, relevar. Mas o canis lupus não teme o oficial de justiça nem a infâmia; temo-o eu, portanto.
E é por isso que, no futuro, quando levantarem os nomes dos trogloditas que não apoiaram a causa dos animais para ingressar no tribunal da civilização, encontrarão o meu - armado para o contra-ataque.
No Cabo Branco, há efervescência nas calçadas e um aluguel de bicicletas a dois quarteirões do meu abrigo. Coloquei o par de tênis pra trabalhar duro e até aposentaria o carro, não fosse o expediente a dar.
Mas nem tudo é paradisíaco neste inferno de quase 40 graus.
Apesar de gasta, a metáfora do inferno é necessária. Além do calor, há um problema do cão. Até agora, não se passou um dia sem que eu tenha botado os pés na rua sem topar com cachorros por todos os lados.
Há os vadios, à espera de sacos de lixo por comida e rodas de moto por diversão; há os domados, à espera de um segundo de distração de quem lhes controla a coleira para farejar a liberdade em pernas alheias.
Todos me apavoram mais que o diabo o faria, se existisse. Outro dia, saí à noite em busca de brisa e vi avançar em minha direção um desses bichos, puxando o dono pela corrente - ambos com a língua pra fora.
Desviei o caminho.
O cachorro do dono percebeu e quis argumentar comigo. Não tenho garras de felino nem caninos de lobo, portanto não discuto com um homem armado. Teria trepado na árvore, se tivesse braços de macaco.
Segui adiante e às pressas, tremendo e pensando. Meses atrás, desejei publicamente um canil fétido e solitário a um cachorro que me assustou na praia. Fui severamente repreendido.
- Por que não poupa o animal inocente e reclama do animal irresponsável? - questionaram.
Porque o homo sapiens é meu semelhante; em suas falhas, vejo as minhas - e me disponho a compreender, relevar. Mas o canis lupus não teme o oficial de justiça nem a infâmia; temo-o eu, portanto.
E é por isso que, no futuro, quando levantarem os nomes dos trogloditas que não apoiaram a causa dos animais para ingressar no tribunal da civilização, encontrarão o meu - armado para o contra-ataque.
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