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O visitante chinês



Quase junho e a chuva só vem de passagem, o frio não manda recado, o inverno parece que não chega. Quem chegou por aqui foi o premiê chinês, trazendo a chave do cofre e posando para o retrato.

Vibra o governo com a notícia de 50 bilhões de dólares, mas não vibram os analistas. A China não vem para ser parceira do Brasil, mas para cuidar de seus interesses geopolíticos - é o que dizem.

E choram. Porque não construímos pontes e portos à velocidade da luz, porque a roda da história vai girando outra vez e não somos nós os preparados para assumir a liderança do mundo.

Não sei se choro com eles por esses motivos, mas choro porque me dou conta de que, se é a China que vem para mandar no terreiro, vou ficando ainda mais ignorante do que supunha ser.

Vejam vocês: só agora descobri que a China tem um premiê. Jiang Zemin, Hu Jintao, esses caras que apareciam nos livros escolares com caras de macho-alfa não podiam mais que a rainha da Inglaterra.

Tudo bem que isso é peixe pequeno e a pescaria, dos chineses. Mas eu me sinto ludibriado - não pelos livros escolares, que de resto me passaram a perna em muita esquina, mas por Xi Jinping.

Explico-lhes.

Semana passada, antes de o chefe de governo chinês aterrissar em Brasília, o outro chefe - aquele que só faz jantares e corta fitas - me apareceu em sonho. Isso, ele mesmo, Xi Jinping.

Eu estava em casa quando a campainha tocou (minha casa em Campina não tem cigarra, mas no sonho isso se resolve sem barulho nem custo), fui atender e dei com o presidente na calçada.

Vinha para discutir política externa e pedir meu conselho nesse ou naquele ponto. Eu, que da China mal conheço Lea Fook Shiam - o bisavô engalhado em minha árvore genealógica -, apavorei-me.

Acordei a tempo de evitar o vexame no imaginado e a baba no travesseiro. E reencontrar a velha disposição das coisas: o quarto, quente; a China, distante; o mundo, mudo.

*

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