Há quem diga que a cidade mergulhou no caos; há quem diga que tudo
não passou de pânico de classe média no WhatsApp; há quem diga que a
culpa é de Ricardo, ou que já era assim no tempo de Cássio.
Eu só
digo que um dos ônibus foi queimado a menos de um quilômetro de onde
moram minha mãe e minha irmã mais nova, o que foi suficiente para me
deixar menos cético e mais preocupado.
Mas também há quem diga que a culpa está nas relações espúrias entre a bandidagem legal (nas casas legislativas, nos palácios de governo, nos quartéis de polícia) e a ilícita (nas células do crime organizado).
Não duvido, como não duvido do desespero de quem diz que bandido bom é bandido morto. Mas os bandidos se matam entre si todos os dias, no entanto continuam a proliferar como mosquitos em epidemia.
Por isso eu digo que bandido bom era o bandido de antigamente. No século passado, tive dois encontros com o tipo. Superado o susto e corrido o tempo, guardo deles ternas recordações.
No primeiro encontro, foram dois ao mesmo tempo. Ia eu na magreza dos onze anos ao dentista quando os elementos me abordaram na esquina. Tremi, perdi o sangue, paralisei.
Um deles olhou para o relógio no meu pulso e sorriu. Comecei a desatar a fivela. O outro pediu licença, estendeu a mão para recebê-lo e agradeceu. E saíram desembestados, celebrando a medalha.
Por mais revoltado que seja, o leitor há de concordar: assaltaram como verdadeiros lordes ingleses. Ainda hoje, revejo o sorriso do primeiro e me pergunto em que cela ou sarjeta terminou seus dias inglórios.
No segundo encontro, eram dois também. Ia eu na magreza dos meus treze anos à aula de inglês quando dobrei na esquina e topei com os elementos. Tremi, perdi o sangue, saltei da calçada pra rua.
Um deles disse: "é esse, pega". O outro ponderou: "esse não, tem polícia na área". E saí eu desembestado até a cada de vovó, que me deu beijo, água e carona.
Mas até hoje penso na ética do segundo ladrão: poupou um menino indefeso, temeu a polícia. E me pergunto por que esquinas errou até concluir o presente de grego que os pais lhe deram.
Depois disso, as coisas degringolaram. Tive outros dois encontros com bandidos ilícitos, ambos neste enfadonho século de muita pressa e pouco charme. Eram rudes e apagavam a alma com o olhar.
Não merecem esta crônica.
Na última quinta, quase tive o quinto encontro. Ia ao concerto da Sinfônica em João Pessoa, mas uma congestão nas vias aéreas me levou pra casa. No outro dia, soube do tiroteio na saída, que deixou feridos.
Há quem diga, com meio sorriso nos lábios, que a classe média só está começando a padecer de um problema que aflige os menos abastados há décadas. Se é assim, digo eu: enfim, juntos - e lascados.
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