A semana começou em
eleição e terminou em literatura, por isso mesmo o Festival
Internacional de Autores parece não ter outro assunto: política. Tudo
bem, exagerei; ainda é o terceiro dia e eu só fui a duas de dezenove
mesas e papos.
Pingo no i, portanto.
Steven Pinker veio na quinta pra conversar com Ken Dryden sobre
cérebro, escrita e violência; terminou entrando na eleição canadense
quando um ouvinte perguntou: por que os adversários são tão agressivos
no debate político?
Porque não se mobilizam militantes com ponderação. – respondeu Pinker. E deu sarna pra quem coçou: por quanto tempo você ficaria vendo um jornal que noticiasse apenas que tudo está em paz e dentro da mais absoluta normalidade?
Políticos precisam do ringue, como jornalistas do desastre.
Ontem, vieram Sara Winman, Tim Conley e Jillian Tamaki (olá, prazer conhecê-los!) pra discutir fantasia e realidade na literatura do século XXI. Tim Conley começou fazendo piada: qual a diferença entre o mágico e o político?
Alguma risada, reposta alguma.
É que o mágico avisa à platéia que vai enganá-la e cumpre a promessa, enquanto o político promete a verdade e engana o auditório. Risos, mais risos, palmas, mais palmas e Tim Conley conclui: eis por que fantasia vende mais que realidade.
Quando tudo acabou, encarei a chuva rala e o frio discreto soprando do lago pra caminhar pelas ruas e arejar as idéias. Ocupados com acrobacias de estilo e malabarismos de enredo, muitos escritores talvez percamos de vista o leitor.
Ia nessa passada quando, na altura de Bay Street, um estrondo me trouxe de volta à cidade. Dali a pouco, sirenes de ambulância, faróis de polícia, fumaça na Prefeitura Velha... e celulares de pedestres começaram a farejar a fogo.
Segui o fluxo dos curiosos até dar com a rua interditada, o Corpo de Bombeiros e – minha nossa senhora do terrorismo! – dois carros de rodas pro ar, completamente carbonizados. Fotos & vídeos surgindo de todos os poros.
Aproximei-me do guarda, imperturbável como um cachorro ao banho de sol. O guarda, lógico. O que houve, quantos mortos, de quem a autoria etc. e tal. E ele, chiclete na boca e fim de expediente no olhar:
- É só uma turma aí fazendo outro filme.
Porque não se mobilizam militantes com ponderação. – respondeu Pinker. E deu sarna pra quem coçou: por quanto tempo você ficaria vendo um jornal que noticiasse apenas que tudo está em paz e dentro da mais absoluta normalidade?
Políticos precisam do ringue, como jornalistas do desastre.
Ontem, vieram Sara Winman, Tim Conley e Jillian Tamaki (olá, prazer conhecê-los!) pra discutir fantasia e realidade na literatura do século XXI. Tim Conley começou fazendo piada: qual a diferença entre o mágico e o político?
Alguma risada, reposta alguma.
É que o mágico avisa à platéia que vai enganá-la e cumpre a promessa, enquanto o político promete a verdade e engana o auditório. Risos, mais risos, palmas, mais palmas e Tim Conley conclui: eis por que fantasia vende mais que realidade.
Quando tudo acabou, encarei a chuva rala e o frio discreto soprando do lago pra caminhar pelas ruas e arejar as idéias. Ocupados com acrobacias de estilo e malabarismos de enredo, muitos escritores talvez percamos de vista o leitor.
Ia nessa passada quando, na altura de Bay Street, um estrondo me trouxe de volta à cidade. Dali a pouco, sirenes de ambulância, faróis de polícia, fumaça na Prefeitura Velha... e celulares de pedestres começaram a farejar a fogo.
Segui o fluxo dos curiosos até dar com a rua interditada, o Corpo de Bombeiros e – minha nossa senhora do terrorismo! – dois carros de rodas pro ar, completamente carbonizados. Fotos & vídeos surgindo de todos os poros.
Aproximei-me do guarda, imperturbável como um cachorro ao banho de sol. O guarda, lógico. O que houve, quantos mortos, de quem a autoria etc. e tal. E ele, chiclete na boca e fim de expediente no olhar:
- É só uma turma aí fazendo outro filme.
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