Pular para o conteúdo principal

Minha vesícula não cooperou


De tudo o que tenho tentado sem sucesso algum conhecer, a Música salta aos ouvidos como o que há de mais difícil, depois da Física, de fazer passar dos sentidos aos circuitos da razão.

Uns relampejos aqui, umas trovoadas ali, e a História da Música Ocidental de Otto Maria Carpeaux continua acolá tão introdutória e tão despojada, mas tão inacessível a estes miolos tão moles.

Nem falo de outras e mais técnicas tentativas, que humilhação grande se disfarça. Vejam este exemplo. Outro dia, voltei pra casa com um álbum em três cedês de Ytzhak Perlman na bolsa.

Sim, ainda compro cedês; e sem culpa. Ao contrário, alegro-me por contribuir com dois ou três tostões para que um artista não tenha de ganhar a vida num tribunal pé-no-saco de justiça.

Lá dentro, no encarte, certo Mr. Shapiro apresenta o tal Perlam Sound como "lustrous, warm, generous". Arranho o cedê e sinto as cordas cintilarem, mas não sei explicar como nem por quê...

... muito menos saberia identificar aquele som como de seu autor se o nome dele não estivesse na capa, no encarte, na arte do disco e, melhor que tudo isso, na programação da Noite de Gala.

Ai, meus leitores, era isso que queria contar. Tanto rodeio só pra lhes dizer que a Orquestra Sinfônica de Toronto anunciou Ytzhak Perlman como solista do concerto de abertura da temporada.

Anos atrás, voltei pra casa no abrir de olhos de um sábado e dei com Artur da Távola na TV Senado comentando o concerto para dois violinos de Bach. Os solistas, dois Isaques: Stern e Perlman.

Sentei, (ou)vi. Em poucos segundos, estava tão desconcertado pela visão fora do comum daqueles dois deuses em sua dança de arco, corda e corpo que caí de joelhos, em êxtase e adoração.

Ao saber que o único ainda vivo dos dois estaria aqui, corri à Sinfônica. Dias depois, com um dos últimos ingressos na mão e um dos primeiros pés no salão, sentei outra vez para ouver...

... quando o regente entrou, pediu desculpas e anunciou que "meu amigo Itzhak foi operado, por isso não pôde vir, mas me pediu que lesse uma mensagem que só ele pra escrever assim":

- Infelizmente, minha vesícula não cooperou, mas Pinchas Zukerman vai dar uma mãozinha.

E entrou Mr. Zukerman, deu as duas mãos pra noite não ser vã, sem chegar a ser de outro mundo. Frustrado mas remediado, voltei pra casa, corri ao YouTube e procurei o vídeo dos Isaques.

Encontrei. Isaac Stern estava lá, baixando sei lá qual espírito nos braços. Mas o outro solista - reparem só que loucura e riam comigo, por bondade - não era Itzhak Perlman, era Shlomo Mintz!

*


*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias. Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários. É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião. Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores. Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha. Se o presente justifica-se a si mes...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...