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Mostrando postagens de 2025

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Papa Bergoglio

O jovem Jorge Mario Bergoglio era filho de um italiano que emigrou para Buenos Aires fugindo do regime de Mussolini. Técnico em química, trabalhou em fábrica, foi professor de literatura e namorou antes de tornar-se padre. Como jesuíta, seu ministério conheceu dois momentos distintos. Após breve ascensão, chefiou a congregação na Argentina e teve atuação controversa nas relações com o regime militar. Caiu no ostracismo e dele ressurgiu diferente. Na segunda fase, atuou como bispo em Buenos Aires, alinhando-se a uma Igreja engajada em pautas sociais, mas sem engajar-se em militância partidária. Nada muito longe da velha doutrina social da Igreja, iniciada por Leão XIII na transição para o século XX. Jorge Bergoglio, portanto, foi um homem que conheceu na própria pele, ainda jovem, a vida de um operário e o dilema de um líder em momento crítico. Trazia consigo a consciência de que cada humano é um ser em contínua evolução. Uma carta sua, já quando Papa, faz pensar sobre isso. O Papa Berg...

Francisco, bispo de Roma

  Há 50 dias, a freira Raffaella Petrini tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Governadora do Vaticano. Pouco antes, outra freira, Simona Brambilla, tornara-se a primeira mulher a chefiar um dicastério da Cúria Romana. Este delicado movimento no xadrez milenar da Igreja Católica havia sido feito por um homem que, ao ser anunciado o primeiro Papa da América, preferiu apresentar-se apenas como bispo de Roma. O detalhe pode passar despercebido, mas não é ingênuo em uma instituição cujo poder está assentado não apenas em patrimônio e diplomacia, mas também, e sobretudo, na força dos símbolos. Jesuíta, com acesso à formação católica de elite, Jorge Mario Bergoglio sabia que a Igreja e o papado têm uma História e nem tudo o que parece ter sido sempre, sempre foi como hoje é. No princípio, o bispo de Roma era apenas um dentre outros bispos e compartilhava com seus colegas de Alexandria, Jerusalém, Antioquia e Constantinopla a liderança e o prestígio primordiais. Só no final do s...

No leito de Procusto

Vira e mexe, o velho Nondas dá um susto na prole. Ainda ontem, baixou hospital, com o potássio vibrando mais que bateria de escola de samba às portas do Carnaval. Ficou para averiguações. Fiquei eu para uma longa jornada. Tudo controlado, o velho Nondas relaxado, cobri seus olhos com o famoso paninho, que nos acompanha há gerações. Repassei os meus olhos no Ésquilo que levei na bolsa e - imaginei que dormiria. A cama que a UTI reserva ao acompanhante é, na verdade, um sofá de dois lugares e braço nenhum. Quem deita, vindo de revisitar o mundo grego, teme logo que seja Procusto o dono do hospital. Já fazia umas duas horas que eu oscilava entre as pernas recolhidas e os pés no chão quando a cabeça quis vencer a batalha dos membros e decidir, pelo sono, senão a melhor, a última posição. Então, alguém gritou. Saltei em olhos e orelhas e pernas. O velho Nondas dormia, nem sinal de Procusto. Algum paciente flertava a morte, o filho pedia socorro. Carreira de batas no salão iluminado. Outras ...

Como posso ser triste se, em 2024,

tive acesso, em sonho, aos manuscritos perdidos de quatro dos cinco cantos dos Retornos de Agamêmnon, Menelau e Helena, tendo ouvido dizer que o quinto canto encontra-se no Egito; vi brotar uma flor de antúrio, vermelha, compensando outras cinco que morreram, pálidas, e há um mês mantenho vivas mais cinco flores, ainda não descoloridas pelo verão, que insiste em voltar; consegui ler um diálogo de Platão em Grego, com a ajuda de dois dicionários, dez colegas de sala e um professor que, por sua vez, aprendeu a ler Platão com José Gabriel Trindade e Juvino Maia; vi brilhar, vindo de Antares, a luz que de lá saiu pouco antes de Atahualpa tornar-se o décimo terceiro Sapa e mandar afogar seu irmão Huáscar, o décimo segundo Sapa, no rio Negromayo; Maria Luísa, a segunda sobrinha, aprendeu a me chamar de Thiago e revelou à mãe que, embora nem sempre consiga lembrar meu nome, gosta de mim e quer voltar a se hospedar em minha casa; não consegui escrever um único verso, mas li os 1781 versos de A...