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Parábola dos dois presidentes

01. Naquele tempo, o celular presidencial vibrou em plena madrugada. Escutando o barulho, a primeira-dama despertou e disse: Meu deus do céu, Jair! De novo?! 02. E o presidente da República respondeu: Desculpa, amor. Prometo que vou só desconectar aqui. Então, ele pegou o aparelho, olhou a tela e soltou um grande grito de horror. 03. A mulher ficou tão assustada que não conseguiu falar. Então, o marido disse: Jânio Quadros me mandou um zap! E, estendendo o aparelho à esposa, desfaleceu sobre ela. 04. Quando o presidente voltou a si, viu dois homens ao pé da cama. O mais velho bateu continência e disse: Senhor, sou da Abin e verifiquei o celular, a mensagem é de Jânio. 05. Então, o mais novo se aproximou, coçou a perna e disse: Senhor, vim da parte de Olavo e consultei os astros. Os espíritos também se atualizaram e agora baixam pelo zap. 06. Jair tomou o celular na mão, ergueu-o para o alto e leu o que estava escrito: Também não nasci para pr...

À espera do cônsul

O melhor emprego do mundo é o de cônsul da Suíça em Olinda. Quem me assegurou isso foi um daqueles artistas que andam pela cidade velha vendendo serigrafias coletivas. Vi o dedo do homem apontado para o sobrado que abriga o consulado da Suíça, pensei nos graves problemas de política internacional que as janelas encobrem e concordei com cabeça de lagartixa. Chegados aos Quatro Cantos, vi um sobrado à venda e pensei que, se a Suíça tem lá um consulado, Campina Grande já merece o seu. A idéia me caiu como semente.  Então, com a desculpa de economizar dinheiro para negócios diplomáticos futuros, dispensei as serigrafias do bom mercador e tomei o caminho da praça João Alfredo. Ia descendo a Prudente de Moraes quando outra placa - dessa vez, por conta própria - me chamou a atenção. O consulado do Uruguai. Eis aí o verdadeiro bom emprego. O sobrado da Suíça é tímido, quase aberto para a rua e não deixa ao cônsul outra saída, quando chega o Carnaval...

Virando a folha

Estava em casa, fazendo o almoço, quando o celular tocou. Vi o 011 na tela e me preparei para a moça do cartão de crédito ou o rapaz do novo plano Vivo. Atendi pronto pra iniciar o Quebra-Quilos. Por que perder tanto tempo com quem não quer mais minutos ou só aceita outro cartão sob tortura?! Mas a voz do outro lado anunciou:  - Aqui é do Datafolha... Durante anos, via o 011 surgir na tela e corria para atender na esperança de que seria Luiz Schwarcz oferecendo contrato e amizade. Alô, Thiago, li seu livro etc. e tal.  Até que me conformei: só a moça do cartão e o rapaz da Vivo se interessam por mim. E passei a papear com uma e outro. Mas boa vontade é coisa de que não se deve abusar. De modo que a moça do Datafolha me apanhou com os cachorros na ponta língua. E me desarmou fácil, fácil. Queria minha opinião sobre a Folha de S. Paulo. Vibrei de emoção. Assim como Carlos Heitor Cony foi o cronista que passou de pai pra filho, a F...

Fugere urbem

Dia desses, recebi o anúncio de um edifício lançado em João Pessoa. Coisa bonita, chamativa, fácil. Meia dúzia de cliques e o corretor já me aguardaria dia tal, hora tal. Por que não? Dei os cliques e, chegado o dia, fui bater no local marcado. Cenário de Versalhes, tratamento de Luís XVI. Cortesias, salamaleques, sala vip, circo armado pra fazer de mim o Rei. - Mas, e o apartamento? - perguntei. - Isso vem depois. Porque o agora era Versalhes. Era a pompa com que me envolviam na promessa de pertencer a um seleto clube, feito de spas, shoppings, lounges, piscinas e espaços gourmet. - E o apartamento? - insistia. - Se o senhor aceitar ver a proposta, marcaremos uma demonstração de duas horas pra falar sobre isso. Aceitei. E veio a proposta. Quatro vezes e meia o preço do apartamento de mesmo tamanho que comprei oito anos antes, sem que os custos tenham subido sequer duas vezes. Proposta impressa, ganhei o benefício de três noites com o travesseiro pra pe...

Uma questão de vista

Jorge Amado é desses autores a que tenho ido por partes e de diferentes formas ao longo da vida. Talvez por ser vasta sua obra, talvez porque leio de modo muito bagunçado. Nos anos 90, havia quase nada dele entre os livros lá de casa ou dos meus avós. Mas havia o romance completo de Machado. E foi o Bruxo quem um belo dia me pegou de jeito. Assim é que só li, quando adolescente, o que a escola obrigou a ler. Tenda dos Milagres, Quincas Berro d'Água e não lembro se mais algo me atiçou as ereções e os desejos. Já na faculdade, veio a greve. Greve longa, de meio ano, a melhor temporada destes meus anos jurídicos e judiciários, porque eu não tinha compromissos e só tratava de literatura. Jorge Amado morreu por esses dias e algum jornal fez circular uma edição de Dona Flor. Arranhei umas páginas, não engatei na segunda e terminei me transformando com o Jesus de Saramago. Os anos 10 já estavam no horizonte quando voltei ao baiano. Fui lá para o ...

Coisa de menino

Fuga de prisão é coisa séria. Que o diga a fuga recente da penitenciária de João Pessoa. A segurança era máxima, mas a porta foi pelos ares, um PM morreu e uma centena deu no pé com dificuldade mínima. Mal começou a caçada, veio o pânico no zap. Tiros em Manaíra, captura no Bessa, carreira no Altiplano. Coisa de cinema. Ou coisa de infância. Quando eu era menino, Pablo Escobar virou fugitivo da Interpol e ganhou (ainda mais) os jornais. Naquele tempo, o terror de quem andava nas ruas de Campina Grande era dar com um trombadinha na esquina. O que já era terror suficiente, mas não passava de um terror local, sem o glamour da fuga internacional. Já Pablo Escobar, embora fugisse dentro de casa mesmo, era um caso de mobilizar polícias e diplomacias. E dava na tevê, não em patrulha policial, mas em horário nobre, com Cid Moreira, Boris Casoy, Lillian Witte Fibe. Eu acompanhava aquilo tudo e tremia. E se ele tomasse um avião, entrasse no Brasil sem ser visto, viajasse...

Alvorada

A insônia tem seus ritos e não sou eu, que tenho lá uma queda por rituais, quem vai ludibriá-los. A coisa toda começa antes mesmo de o sujeito tomar dois dedos de água e ir pra cama. Não sei que comichão vai invadindo o corpo e fazendo o inocente pensar em tudo o que pode distrai-lo do sono: a fome do cão, o trabalho por concluir, as camisas a passar... Mas a pessoa sabe que está saciada, que o trabalho pode esperar pela aurora e que as camisas estão todas as noites por passar. Toma, então, a decisão: bebe água e se deita. Por quê? Para quê? São onze e meia, quase doze horas da noite e o camarada sente que já passa da hora de dormir, por isso teima, e lima, e sofre, e sua, mas a pepita não vem. Nem virá. O que vem é a consciência de que não se vai dormir. E logo em seguida, ai meus deuses!, a percepção de por que não se vai dormir. Eis o ponto crucial da insônia. É preciso aceitar sua chegada, é preciso aceitar seu motivo. E deixar que ele salte do c...