Se a primeira impressão é a que fica, meu cartão de memória já gravou para sempre a imagem da gentileza dos moradores de Toronto. Levei menos de uma rotação pra descobrir.
Feitas as apresentações em casa, saí à rua com Jina para conhecer pontos de referência e comprar o cartão de transporte. Na altura da ladeira em Finch Av., um rapaz se aproximou.
Tremi. E pensei: nem dormi a primeira noite e já vou ser assaltado!
- Senhora, há uma bicicleta descendo a rua atrás de vocês; cuidado pra não se machucarem.
Dupla vergonha. Primeiro, por ter pensado mal do garoto. Segundo, por ter me sentido um bruto. Relatei o susto e a catarse a Jina, que sorriu: "É sempre assim com os brasileiros."
As demonstrações se sucederam com a rapidez do verão canadense. No dia seguinte, abri o mapa em Front St. e uma senhora surgiu do nada oferecendo ajuda.
No almoço do terceiro dia, a garçonete me serviu água de graça e, quando se deu conta de que eu a havia bebido num engolir de saliva, veio se desculpar com outros três sucessivos copos:
- Perdoe-me, você estava com sede e eu não o saciei adequadamente.
Daí em diante, uma sucessão de perdões, com-licenças e obrigados em ruas, praças, vagões de metrô. As filas para entrar nos ônibus são de levar ao céu as tias do maternal.
E se duas pessoas estão para passar pela mesma porta ao mesmo tempo, lá se vão alguns segundos de mútuas mesuras: você primeiro; por favor, você; eu imploro; obrigado.
Depois de uma semana, já estava tão habituado que não estranhei quando Mr. Slany me viu com o mapa aberto na calçada da Sinfônica e puxou assunto para além da ajuda.
- Brasileiro?! Oh, quarenta anos atrás o bispo Hélder Câmara esteve aqui. Santo homem! Eu adoro os brasileiros!
E começou a me contar a história de alguns prédios em torno, dar dicas de programação cultural e dizer isso e aquilo, fazendo questão de falar pausadamente para que eu o entendesse bem.
Ao fim, passou-me o e-mail para que eu pedisse ajuda se precisasse. Agradeci e lhe falei como estava desnorteadamente impressionado pela gentileza dos moradores da cidade.
- Oh, estamos no verão. Aguarde o frio chegar e veja como tudo muda.
Dois dias depois, o outono deu o primeiro apito de alerta. O céu se fechou, o vento frio sacudiu os galhos das Maple Trees perto da Finch Station e os casacos foram saindo das bolsas.
Eu estava na fila quando o ônibus chegou e a chuva desabou. De repente, num rebuliço de fazer chorar as tias do primário, todos correram desembestados em busca do primeiro assento.
E eu me dei conta de que, debaixo daquele toró, até em Toronto se perde a compostura.
- Senhora, há uma bicicleta descendo a rua atrás de vocês; cuidado pra não se machucarem.
Dupla vergonha. Primeiro, por ter pensado mal do garoto. Segundo, por ter me sentido um bruto. Relatei o susto e a catarse a Jina, que sorriu: "É sempre assim com os brasileiros."
As demonstrações se sucederam com a rapidez do verão canadense. No dia seguinte, abri o mapa em Front St. e uma senhora surgiu do nada oferecendo ajuda.
No almoço do terceiro dia, a garçonete me serviu água de graça e, quando se deu conta de que eu a havia bebido num engolir de saliva, veio se desculpar com outros três sucessivos copos:
- Perdoe-me, você estava com sede e eu não o saciei adequadamente.
Daí em diante, uma sucessão de perdões, com-licenças e obrigados em ruas, praças, vagões de metrô. As filas para entrar nos ônibus são de levar ao céu as tias do maternal.
E se duas pessoas estão para passar pela mesma porta ao mesmo tempo, lá se vão alguns segundos de mútuas mesuras: você primeiro; por favor, você; eu imploro; obrigado.
Depois de uma semana, já estava tão habituado que não estranhei quando Mr. Slany me viu com o mapa aberto na calçada da Sinfônica e puxou assunto para além da ajuda.
- Brasileiro?! Oh, quarenta anos atrás o bispo Hélder Câmara esteve aqui. Santo homem! Eu adoro os brasileiros!
E começou a me contar a história de alguns prédios em torno, dar dicas de programação cultural e dizer isso e aquilo, fazendo questão de falar pausadamente para que eu o entendesse bem.
Ao fim, passou-me o e-mail para que eu pedisse ajuda se precisasse. Agradeci e lhe falei como estava desnorteadamente impressionado pela gentileza dos moradores da cidade.
- Oh, estamos no verão. Aguarde o frio chegar e veja como tudo muda.
Dois dias depois, o outono deu o primeiro apito de alerta. O céu se fechou, o vento frio sacudiu os galhos das Maple Trees perto da Finch Station e os casacos foram saindo das bolsas.
Eu estava na fila quando o ônibus chegou e a chuva desabou. De repente, num rebuliço de fazer chorar as tias do primário, todos correram desembestados em busca do primeiro assento.
E eu me dei conta de que, debaixo daquele toró, até em Toronto se perde a compostura.
*
As linhas das filas.
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