De vez em quando, dormir é aventuroso.
Outro dia, aliás, outra noite, sonhei que a revolução cubana estava em curso no sétimo andar do San Pietro, aqui na Bela Vista. Da janela, Fidel Castro prometia tomar a cidade antes do amanhecer.
A resistência havia sido organizada três casas e um terreno baldio a oeste, mas dava sinais de queda iminente. Os rebeldes forçavam a porta quando, num sobressalto meu, Campina não se tornou Havana.
Já fui preso por deserção na casamata de Hitler. Usei bengala e com ela impedi Bioy Casares de retirar certo livro da Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Vi Jesus de Nazaré numa sacada em Salvador.
Mas nada se compara à noite, aliás, ao dia em que o carteiro chamou na calçada e me entregou uma caixa dentro da qual estava a caveira de Ricardo III, com cartão assinado por Elizabeth II.
Um sonho! Um sonho! Minha insônia por um sonho!
E se o sono descambar em pesadelo, que os cílios vibrem e os olhos voltem a rasgar o escuro habitual de um quarto de solteiro, sem o consolo de uma voz assustada, de um pé burocrático.
Mas dos pesadelos não falo, porque ainda trago cá o conselho de um amigo que há muito não vejo, mas ainda escuto muito: não revele aos demais suas fraquezas. Ou abro exceção e falo de um.
Dei pra pesadelar com vovô José me cobrando a fluência em outras línguas. Que houve que ainda não é poliglota? - pergunta ele ao almoço. Quando é que vai falar bem pelo menos o inglês? - ao jantar.
Esperava de você o grego e o latim. - entre o mamão e a coalhada.
E sempre aquele susto sobre o travesseiro, coração acelerado e nuca molhada. E sempre aquele resto de madrugada sem sono nem fim, a matutar o porquê disso e não daquilo. A matutar...
Assim foi que tomei uma decisão. Acumulei as férias de dois anos, tirei licença sem vencimento, comprei meias novas, consertei os pijamas velhos e fechei a mala agora há pouco.
Nas próximas dezesseis semanas, pintarei o sete e bordarei o oito em Toronto. Vais ao paraíso! - suspiram uns amigos. Crise hídrica, gastos excessivos do governo e homofobia - anuncia a rádio de Ottawa.
Aos amigos, respondo que vou apagar um pesadelo e acender um sonho. Acordado. E prometo as crônicas.
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Edge Walk
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