Pular para o conteúdo principal

Isso aqui não é a Inglaterra


A imagem mais antiga que tenho do Canadá vem da velha Mirador do meu pai: as duas torres curvadas da prefeitura de Toronto, em torno de uma tigela que lembra o Senado brasileiro.

Segunda passada foi feriado - Civic Holiday. Então, desci ao Centro para ver se a imagem batia com a realidade e conferir o que se passava na praça da prefeitura em dia de festa cívica.

O edifício não me pareceu tão impressionante quanto a memória de infância fazia supor. Na praça, apenas alguns turistas vendo a cidade através dos celulares e um balcão oficial de informações.

- O que é exatamente o Civic Holiday?

O rapaz a quem pergunto pede ajuda a uma moça que me estende um folder e explica que em Fort York posso conferir algumas celebrações à tarde. Não entendo o fim da frase.

Mas faço minha primeira descoberta: York era o nome original do povoado que existia à beira do lago Ontário e em torno do mercado, da igreja e da prefeitura, alguns metros a leste da atual.

Começo então uma caminhada aleatória pelas ruas desertas para me familiarizar com os nomes, as direções e os sinais de trânsito. Em alguma esquina, abro um mapa e alguém oferece ajuda.

E os nomes vão me dizendo que a Inglaterra ainda está por todo lugar na Toronto oficial. 

A prefeitura fica na Queen St., a Sinfônica se apresenta na King St., a Princesa de Gales dá nome a um teatro, a Princesa Alexandra a outro e muitos restaurantes têm nomes de nobres.

Entro em uma livraria aberta e procuro uma revista canadense para me inteirar dos assuntos locais. Tudo o que encontro são títulos como This England, Britain, The Royal Family e Irish Roots.

Passo por uma igreja, sou atraído pelo anúncio de um concerto gratuito e vejo o programa do dia: compositores europeus, músicos europeus, apenas a platéia canadense - e nem tanto.

Quando o dia começa a cair e o cansaço a chegar, volto para o apartamento de Victor e Jina, o simpático e acolhedor casal de imigrantes que me hospeda. Ele, judeu marroquino. Ela, filipina.

Victor me abre seu largo sorriso, pergunta pelo passeio e me oferece uma fatia de bolo.

- Posso pegar um garfo?

E ele, às gargalhadas:

- Oh, isso aqui não é a Inglaterra, use a mão e coma!

*

Toronto City Hall

*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Sobre um idílio

Já li de tudo um pouco: que 'Me Chame pelo Seu Nome' é uma história de amor, um drama gay ou a celebração nostálgica dos anos 80. Só não li o que o filme me pareceu. Imaginem vocês. A esposa de um professor universitário herda uma casa de campo na Itália e o casal passa as férias de verão lá com o filho de 17 anos, um aluno americano e amigos em trânsito. E o que eles fazem? Tomam banho de sol, lêem poesia, degustam frutas, tocam piano, passeiam pelo campo, discutem filologia, mergulham no lago, catalogam achados arqueológicos, fazem sexo. Tudo se desenrola sem pressa e com brio. A televisão é um detalhe no canto da parede, o telefone é um aparelho preso à tomada e a cidade mais próxima está fechada para o ócio. O cenário político da Itália dos anos 80 vem à tona e causa certa inquietação, mas o que empolga os convivas é a descoberta de restos de estatuária antiga no mar ali perto. Sim, é um filme que fala de coisas antigas, tão antig...