Os amigos pedem notícias e
querem que eu confirme a impressão nossa de cada dia: qualquer país do
mundo desenvolvido é melhor que o Brasil. Se é assim, por que voltar?
Conte os ministérios aí com a mão, que são poucos. - garante um. Eu
conto e descubro que o gabinete do Primeiro-ministro tem 48 pastas,
ocupadas por 38 titulares. Até os veteranos têm uma só pra si.
Certamente, os canadenses não pagam impostos pra sustentar vagabundos. -
assegura outro. Mas Jina reclama todo santo dia da carga tributária
pesada para custear os benefícios do estado de bem-estar.
Até mãe solteira ganha bolsa do governo! - seu desabafo predileto.
Eu lhe digo que também há muita revolta no Brasil contra os impostos
pagos, mas as realidades são diferentes porque ela conta com educação,
saúde, segurança e transporte públicos de qualidade.
Ela confirma
que o sistema de transporte é excelente, não tem nada a reparar no
atendimento médico e diz que, se alguma ameaça à paz ocorrer nas ruas, a
polícia estará lá num piscar de olhos.
Mas é melhor matricular
os filhos em alguma escola cristã. - contesta. E explica: as escolas
públicas não têm ensino religioso, por isso as crianças são mal-educadas
e desrespeitam os professores.
Falando em educação, o espanhol
Marco, um colega de turma, quer saber se é verdade que as escolas
públicas brasileiras são violentas e muitos professores estão
abandonando a profissão.
Eu digo que infelizmente é verdade e
acrescento: por essa e outras razões, não vivo em um país fácil; talvez
por isso os brasileiros estejamos sempre sonhando com paraísos ali e
acolá.
- Oh, os brasileiros acham Paris a cidade mais encantadora
do mundo! - comenta Selene, a simpática adolescente francesa que vem
para passar apenas uma semana conosco.
- Mas isso é porque só
vão lá pra conhecer a Torre Eiffel e a Champs-Élysèes. Se fossem ao
bairro onde moro, veriam que Paris pode ser tão sem graça quanto
qualquer lugar do mundo.
*
A Paris que turista não vê.
*

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