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Essa, eu preciso contar a minha mulher


Volto pra casa e dou com Victor ainda em pé. E aí? - quer saber. A pior viagem da minha vida. Gente grosseira, cidade suja, lixo de comida; tudo é exagero e entretenimento ali. - desabafo.

Ele abre o sorriso dos justos e fala: não lhe disse? a única coisa boa de ir aos Estados Unidos é o alívio de cruzar a fronteira de volta ao Canadá. E me deseja os bons sonhos de que preciso.

Não sei se são os Estados Unidos, ou se é apenas Chicago. O fato é que, voltando a Toronto, paramos em uma cidadezinha de Indiana para os shopaholics fazerem mais uma das muitas compras.

Três horas de purgatório. Mas uma simpática cafeteria e o Jonathan Franzen na malinha prometem salvação. Depois de três dias, volto aliviado a entender algo do que me dizem em inglês.

- Não se preocupe, nem eu entendo o que falam naquela bagunça que é Chicago. - diz a atendente. E me deseja boa leitura ao som da musiquinha francesa clichê que ecoa não sei de onde.

Pego o dicionário e abro o livro, mas dali a pouco um pequeno grupo vai se unindo a mim à mesa e trocamos todos as sacolas ou os ensaios pelo bom papo em deliciosos tropeços e sotaques.

O mineiro Luís fala do calor no Brasil, a turca cujo-nome-não sei-escrever conta maravilhas da Capadócia e a francesa Ema vai falando do amor ideal quando Dan, o motorista, junta-se a nós.

- Ufa! - suspira. Compras pros netinhos e pra minha mulher. Quarenta e três anos de casamento, não é fácil não. Mas pelo menos eu estou sempre pegando a estrada. E adoro um gracejo!

E começa a contar anedotas pausadamente para que possamos rir compreendendo. Volto a sorrir, depois de más recentes notícias. Então, sacolejo o inglês precário na caixola e tomo a palavra:

Certa vez, em uma de suas muitas e famosas arengas no Parlamento britânico, Lady Astor disse a Winston Churchill: - Sir, se você fosse meu marido, eu poria veneno no seu chá. 

Sim, sei que a tirada é mais velha e gasta que nota de mil réis, mas é a minha predileta.

E Churchill, como se deslizasse sutilmente mais uma pincelada na tela: - Madame, se eu fosse seu marido, ficaria encantado em bebê-lo. Então, Dan abre uma longa e deliciosa gargalhada.

- Essa, eu preciso contar a minha mulher! - rio com ele, pensando em Samuel Johnson: quem está cansado do humor, está cansado da vida. 

E percebo que, mesmo dentro do mais acordado dos pesadelos, é possível encontrar esperança ou desforra no semelhante.

*

Sir. Winston vs. Lady Astor

*

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