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E nós sabemos como fazer



Victor Shalma nasceu no Marrocos, logo após a fundação de Israel, em uma família que escapou ilesa do Holocausto. Aprendeu francês na escola, hebraico em casa e árabe na rua.

Ainda criança, começou a padecer de uma doença que ele não sabe ao certo nomear e os médicos não sabiam ao certo tratar. A mãe leu no conjunto um chamado divino para a Terra Prometida.

A família mudou-se para Tel Aviv, ele sarou repentinamente e a mãe viu que Elohim é bom. Mas Victor não se tornou muito religioso e preferiu tratar de ganhar a vida com as próprias mãos.

Durante o serviço militar, aprendeu a manobrar tratores e fazer carpintaria. Certo dia, ouviu dizer que o Canadá precisava de braços fortes para derrubar árvores e trabalhar a madeira.

Leu nisso o sinal da sorte. Comprou passagem, singrou o choro da mãe, não se deu com o francês de Québec, fixou residência em Ontario e, como garante orgulhoso, quase fez grande fortuna.

Bom coração e mulheres. "Por causa disso, eu me ferrei!" - lamenta sempre.

Pergunto então o que ele pensa da imagem pejorativa dos judeus como povo que só pensa em dinheiro. Ele sorri e, fazendo gestos de um patriarca que parece recém-saído de Ur, confirma:

- É a mais pura verdade. O que importa na vida é fazer dinheiro e nós sabemos como fazer. Eu mesmo só penso nisso!

E passa a me dar conselhos de como me valer do cargo público para criar conexões lucrativas ou vender a casa dos meus pais e investir o capital em algum negócio imobiliário pra lá de rentável.

Outro dia, convidou-me para ver como os negócios são feitos. No sábado seguinte, fui com ele à sinagoga. Durante o serviço, os homens se alternam entre recitar as preces e papear entre si.

- Está vendo? Estão fechando negócios. Sabe por que ninguém me procura? Porque fali. Essa é a vida, Thiago. Veja, aprenda!

Vejo, aprendo, penso em Jesus expulsando os vendilhões do Templo de Jerusalém e me pergunto se foi antídoto ou veneno o catolicismo carola com que me salgaram as raízes quando nasci.

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