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Quanto mais simples, melhor


Prometi resistir, mas me deixei cair na tentação. Antes que o primeiro mês se completasse, pedi indicações, corri à livraria e, com o alívio de quem goza ao pecar, procurei uma gramática.

Acontece que, pra quem foi criado com Celso Cunha e Anézio Leão na dieta em louça de pavão, o prato de batata não desceu pela goela. Se ao menos houvesse umas cebolas pra dar gosto.

Os gramáticos de cá escrevem manuais, orientados para o uso e conforme o nível do falante. Iniciante? Compre a básica. Intermediário? Tarja azul. Avançado? Aquela outra, à direita.

E que é das citações dos clássicos? Onde aquele passeio por dez séculos de língua em busca do brilhante mais reluzente? Dois ou três versinhos em meio aos exercícios de fixação? Esqueça.

- Em inglês, quanto mais simples, melhor. - diz a professora Hayley.

Ouço com a resignação embalada pelos cabelinhos brancos que já vão ponteando no queixo. E penso nos dicionários, que marginalizam certos moradores como habitantes do subúrbio literário.

- Mas não há meio de se pensar mais no processo que no resultado? - insisto.

- Para o meu avô, talvez. Para nós, são águas passadas. - prego batido, ponta virada.

Aceito o veredito do tempo e começo a me render às simplificações. Uns cortes aqui, umas contrações ali, uns arranjos mais leves acolá; e tudo dói menos que uma obturação de molar.

Mas o tempo corre para todos em tresloucadas direções. E o verão começa a se apagar nas copas do outro lado da janela quando pergunto se é correto trocar 'suitable' por 'proper'.

- Sim... sim... correto, mas muito formal; e britânico. Se bem que por aqui... talvez... alguém utilize. - diz o professor Khash.

- É por isso que adoro o Canadá! - arremato, com a súbita e secreta alegria de quem descobre seu cavalo de Tróia.

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