Pular para o conteúdo principal

Quanto mais simples, melhor


Prometi resistir, mas me deixei cair na tentação. Antes que o primeiro mês se completasse, pedi indicações, corri à livraria e, com o alívio de quem goza ao pecar, procurei uma gramática.

Acontece que, pra quem foi criado com Celso Cunha e Anézio Leão na dieta em louça de pavão, o prato de batata não desceu pela goela. Se ao menos houvesse umas cebolas pra dar gosto.

Os gramáticos de cá escrevem manuais, orientados para o uso e conforme o nível do falante. Iniciante? Compre a básica. Intermediário? Tarja azul. Avançado? Aquela outra, à direita.

E que é das citações dos clássicos? Onde aquele passeio por dez séculos de língua em busca do brilhante mais reluzente? Dois ou três versinhos em meio aos exercícios de fixação? Esqueça.

- Em inglês, quanto mais simples, melhor. - diz a professora Hayley.

Ouço com a resignação embalada pelos cabelinhos brancos que já vão ponteando no queixo. E penso nos dicionários, que marginalizam certos moradores como habitantes do subúrbio literário.

- Mas não há meio de se pensar mais no processo que no resultado? - insisto.

- Para o meu avô, talvez. Para nós, são águas passadas. - prego batido, ponta virada.

Aceito o veredito do tempo e começo a me render às simplificações. Uns cortes aqui, umas contrações ali, uns arranjos mais leves acolá; e tudo dói menos que uma obturação de molar.

Mas o tempo corre para todos em tresloucadas direções. E o verão começa a se apagar nas copas do outro lado da janela quando pergunto se é correto trocar 'suitable' por 'proper'.

- Sim... sim... correto, mas muito formal; e britânico. Se bem que por aqui... talvez... alguém utilize. - diz o professor Khash.

- É por isso que adoro o Canadá! - arremato, com a súbita e secreta alegria de quem descobre seu cavalo de Tróia.

*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias. Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários. É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião. Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores. Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha. Se o presente justifica-se a si mes...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...