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O velho meu avô


Vovô Toinho me dizia que a vida é difícil e, para provar, falava do sono que sentia quando, ainda criança, era acordado cedo para trabalhar na fábrica artesanal de lanternas orientais da família.

Também me dizia que o desconcerto do mundo vem do Império Romano e, para provar, pegava sua velha edição do Espártaco de Howard Fast para ler algum trecho por ele sublinhado.

Não se dava com o fato de Portugal, tendo menos de cem mil quilômetros quadrados, ter conseguido colonizar um país com mais de oito milhões de quilômetros quadrados como o Brasil.

Mas se dava com a sorte e via em Elizabeth II da Inglaterra a prova mais evidente de sua existência. "Ela não teria sido rainha se o tio não tivesse abdicado." - repetia, como se não repetisse.

Contava os aperreios da vida de viajante comercial com o sorriso triunfal de quem, ao fim, sobreviveu. E sorria ainda mais de como, em meio aos aperreios, soube divertir-se em alto estilo.

Lamentava não ter estudado tanto quanto os irmãos que colaram grau superior, mas se sentia compensado pelos filhos e netos, que "vão melhorando cada vez mais o pedigree da família".

Nunca me falou de amor; mas, quando falava "do velho meu pai", eu sentia em sua voz que estava falando "do meu amado pai". E se justificava: "não fui pra longe, porque queria ficar perto dele."

- Brasileiro é burro, não faz crédito pra investir, gasta mais do que tem.

Foi a frase de Lea Fook Shiam que ele mais me repetiu. Mas Lea Fook deu aos filhos nomes locais, batizou-os na pia católica e não lhes deixou muitas marcas da China que nunca voltou a pisar.

Vovô Toinho curtia um whisky.

Ontem, eu estava na Chinatown de Toronto explicando a alguns amigos a combinação de olhos arregalados com sobrenome chinês quando recebi a notícia de que ele acabara de morrer em Campina.

Fomos a um restaurante, pedimos whisky e brindamos ao velho meu avô, pelas linhas um tanto tortas quanto certeiras em que viveu.


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