Pular para o conteúdo principal

E o sobrinho dele também



Ouvi de não lembro quem há não sei mais quanto tempo que só é preciso conhecer três pessoas para vir a conhecer qualquer tanto neste mundo de muitos humanos e ainda mais deuses. 

Ai, lembro sim. 

Era um otimista, com as virtudes e os vícios do tipo. Conhecia um professor que conhecia um ex-ministro que conhecia um ex-presidente da República - e tirem vocês suas conclusões.

Ou guardem todas para o que vou lhes dizer: não faz três rotações que fui ao cinema e, como quem come pipoca, quase saí de lá com o endereço de um Nobel de literatura na agenda.

Tudo bem, eu sei. O tal premiozinho só faz sucesso entre leigos e amadores; mas esse quase-amigo escreveu uma página impagável sobre a arte de fingir menosprezo. Vale, pois, a crônica.

O fato foi o seguinte: conheço a colombiana Sara, que conhece o peruano Michael, que conhece um sobrinho de Vargas Llosa em Lima. Saímos pra papear, ver The Man from U.N.C.L.E. etc e tal.

Conversa vai, conversa vem, falei n'A Casa Verde do tio - teoria das três conexões na cabeça e celular já fora do bolso a fim de anotar telefone, endereço e melhor hora para entrar em contato.

- Oh, não, detesto Vargas Llosa. E o sobrinho dele também não gosta. Sabe o que mais? Esse papo de literatura já era, o mundo agora pertence aos números. Chegou a vez da matemática.

Arma recuada, estratégia revista. E nesse mundo de agora não há mais espaço sequer para saborear uns clássicos, viajar com uns pássaros de Eliot? - se tenho aprendido algo, é a resistência.

- Enquanto nossos pais e avós forem vivos, talvez. Quando a minha geração assumir o controle das coisas, tia Chica babau!

Não sei se me senti pai, avô, ou mais tataravô do que tudo. Mas no dia seguinte fui a High Park com uma turma tão boa quanto a que foi ao cinema. Shakespeare na tabuleta, anfiteatro lotado. 

E Brutus, "the most honourable, the noblest Roman of them all", surgindo no palco como o fantasma de um universo antigo que não se deixará enterrar tão facilmente, disse a César...

"Words before blows; is it so, countryman?
Good words are better than bad strokes, Octavius."

... e além.

*

E ele também
 
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Sobre um idílio

Já li de tudo um pouco: que 'Me Chame pelo Seu Nome' é uma história de amor, um drama gay ou a celebração nostálgica dos anos 80. Só não li o que o filme me pareceu. Imaginem vocês. A esposa de um professor universitário herda uma casa de campo na Itália e o casal passa as férias de verão lá com o filho de 17 anos, um aluno americano e amigos em trânsito. E o que eles fazem? Tomam banho de sol, lêem poesia, degustam frutas, tocam piano, passeiam pelo campo, discutem filologia, mergulham no lago, catalogam achados arqueológicos, fazem sexo. Tudo se desenrola sem pressa e com brio. A televisão é um detalhe no canto da parede, o telefone é um aparelho preso à tomada e a cidade mais próxima está fechada para o ócio. O cenário político da Itália dos anos 80 vem à tona e causa certa inquietação, mas o que empolga os convivas é a descoberta de restos de estatuária antiga no mar ali perto. Sim, é um filme que fala de coisas antigas, tão antig...