Pular para o conteúdo principal

Décimo dia

Dez anos depois, o telefone fixo voltou a tocar. Miragem auditiva, pensei. Mas minha mãe botou os pés no chão e atendeu a chamada. Pois não. Sim, está. Thiago, pra você.

Tantos anos sem morar em casa, mas o telefone ainda toca pra mim. Num segundo, senti-me restituído ao lar. No outro, quase caí de costas. E aí, meu jovem, como é que tu tá?

- Jacó?!

Jacó Ceroulas foi meu amigo no princípio do século. Ele me apresentou a Rosendo Bulcão e me confiou toda a papelada do finado Marquês de Ariús. Sumiu como surgiu. E voltou!

- Por onde você andou, homem de deus? Está bem? Em casa?!

Com seu jeitinho peculiar, esbravejou contra deuses, o mundo e a pandemia. Bem que eu dizia, meu jovem, que vocês modernos não sabem de nada mesmo. E vão morrer por isso.

- Mas, Jacó, não era você o moderno, ultramoderno, dos três?

Era, meu jovem, do verbo ser no pretérito IMPERFEITO! Jacó, o bom e velho Jacó Ceroulas. Vive no campo, bebe do poço e come do que planta. Liguei pra lhe dizer que a solução

- Jacó? Jacó? Jacó?

O telefone não voltou a tocar. Mas a voz e a figura de Jacó ficaram reverberando em minhas reentrâncias cerebrais jantar em gula, noite adentro, travesseiro a fundo, orvalho afora.

Hoje, quando o Sol baixou, desaposentei uma enxada do quartinho de velharias, tirei as cascas de fruta do lixeiro e me pus a cavoucar o que já foi o jardim - antes da Seca de 98.

- O que é isso, menino?! - a gente de casa se assustou.

- O princípio da agricultura!

Contestaram, ameaçaram com o hospício, desistiram e bateram a porta de casa. Terminada a tarefa, deitei ao pé do oitizeiro e mergulhei no desacostumado silêncio da cidade.

Silêncio feito de cigarras, pardais, correntes de vento. Tão amplo e profundo que já estava pra ouvir as palavras do Papa ecoando da Praça de São Pedro. Quase adormeci em paz.

Foi quando um carro de som cortou a cena e, do coração da cidade, o que ecoou foi o chamado de morte - à rua. Acordei. Pensei na segunda. Lembrei que estamos em guerra. E ela continua.

*



*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias. Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários. É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião. Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores. Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha. Se o presente justifica-se a si mes...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...