O tribunal finalmente decretou o trabalho remoto sem rodízio presencial e, na sexta-feira, eu pude deixar João Pessoa para me reunir a uma parte da família em Campina Grande.
Na garagem, os rigores sanitários das doutoras minha mãe e minha irmã: banhadas chaves, solas e mala, deixei a roupa no balde e passei, como vim ao mundo, direto ao chuveiro.
Aliviado da solidão, comecei a colher notícias de parentes e amigos espalhados pelo mundo. A tensão e os receios de colapso generalizado têm estressado a todos e levado ao choro.
Até os mais céticos tremem.
Alguns adiantam trabalhos, outros põem em dia listas de filmes e livros. Há os que rezam, os que confiam na ciência. Em geral, todos se preocupam com os mais vulneráveis.
E as idéias de como ser útil por meio de algo além de não sair de casa vão brotando aqui e ali. Fazer feiras, antecipar salários, oferecer a casa para instalação de leitos hospitalares?
Preocupações com renda também se acumulam. Quem vive de vendas, aluguéis ou honorários, vê a previsão de receita minguar. Funcionários públicos se tornam potenciais arrimos.
No sábado, falei com Cris. Em fim de férias, deve voltar ao trabalho em um restaurante, que continua funcionando para delivery. Sua preocupação: pegar o vírus sem ter plano de saúde.
Em meio à tensão generalizada, a disposição para manter o ânimo e promover apoio emocional e financeiro recíproco me fez perceber que o vírus termina estimulando muitos ao melhor de si.
Não perguntei se alguém já pensa no que fará assim que o invasor estiver controlado - e me arrependi.
Vovó Soninha brincou ao telefone, dizendo que a família já lhe botou tanto medo para não sair de casa que o receio dela é terminar tendo um treco e morrendo do coração. Falou rindo.
E eu me despedi sorrindo, imaginando que, quando tudo passar, poderemos fazer com Ivo Limeira e Nara Santos seresta, já combinada e desde setembro adiada, na Serra da Borborema.
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