Pular para o conteúdo principal

Quarto dia

O tribunal finalmente decretou o trabalho remoto sem rodízio presencial e, na sexta-feira, eu pude deixar João Pessoa para me reunir a uma parte da família em Campina Grande.

Na garagem, os rigores sanitários das doutoras minha mãe e minha irmã: banhadas chaves, solas e mala, deixei a roupa no balde e passei, como vim ao mundo, direto ao chuveiro.

Aliviado da solidão, comecei a colher notícias de parentes e amigos espalhados pelo mundo. A tensão e os receios de colapso generalizado têm estressado a todos e levado ao choro.

Até os mais céticos tremem.

Alguns adiantam trabalhos, outros põem em dia listas de filmes e livros. Há os que rezam, os que confiam na ciência. Em geral, todos se preocupam com os mais vulneráveis.

E as idéias de como ser útil por meio de algo além de não sair de casa vão brotando aqui e ali. Fazer feiras, antecipar salários, oferecer a casa para instalação de leitos hospitalares?

Preocupações com renda também se acumulam. Quem vive de vendas, aluguéis ou honorários, vê a previsão de receita minguar. Funcionários públicos se tornam potenciais arrimos.

No sábado, falei com Cris. Em fim de férias, deve voltar ao trabalho em um restaurante, que continua funcionando para delivery. Sua preocupação: pegar o vírus sem ter plano de saúde.

Em meio à tensão generalizada, a disposição para manter o ânimo e promover apoio emocional e financeiro recíproco me fez perceber que o vírus termina estimulando muitos ao melhor de si.

Não perguntei se alguém já pensa no que fará assim que o invasor estiver controlado - e me arrependi.

Vovó Soninha brincou ao telefone, dizendo que a família já lhe botou tanto medo para não sair de casa que o receio dela é terminar tendo um treco e morrendo do coração. Falou rindo.

E eu me despedi sorrindo, imaginando que, quando tudo passar, poderemos fazer com Ivo Limeira e Nara Santos seresta, já combinada e desde setembro adiada, na Serra da Borborema.

*


*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Sobre um idílio

Já li de tudo um pouco: que 'Me Chame pelo Seu Nome' é uma história de amor, um drama gay ou a celebração nostálgica dos anos 80. Só não li o que o filme me pareceu. Imaginem vocês. A esposa de um professor universitário herda uma casa de campo na Itália e o casal passa as férias de verão lá com o filho de 17 anos, um aluno americano e amigos em trânsito. E o que eles fazem? Tomam banho de sol, lêem poesia, degustam frutas, tocam piano, passeiam pelo campo, discutem filologia, mergulham no lago, catalogam achados arqueológicos, fazem sexo. Tudo se desenrola sem pressa e com brio. A televisão é um detalhe no canto da parede, o telefone é um aparelho preso à tomada e a cidade mais próxima está fechada para o ócio. O cenário político da Itália dos anos 80 vem à tona e causa certa inquietação, mas o que empolga os convivas é a descoberta de restos de estatuária antiga no mar ali perto. Sim, é um filme que fala de coisas antigas, tão antig...