Pular para o conteúdo principal

Oitavo dia

Passava das oito quando chamei Yasunari Kawabata pra dois dedos de prosa e estirei os pés na rede. Livreto com boa reputação, mas tão chato que, nem no tranco, pegou a leitura.

De repente, comecei a ouvir uns barulhinhos estridulando muro afora. Muito tarde pras cigarras cantarem. Levantei, enfiei a cabeça na fresta da janela e o concerto ganhou coro.

- Fora Bolsonaroooooo!

Só então lembrei que o atleta da República devia estar malhando a língua em público àquela hora. Ainda quis correr à cozinha e sacar a panela, mas a rede rangeu mais alto.

Governadores de todo o país, à esquerda e à direita, escutam a comunidade científica e adotam medidas semelhantes. O capitão, com três bilionários e um filho maluco, vai biritar.

Ia mergulhado no resmungo quando senti uma coceira no braço. Desci o olho e - vixe Maria! Um, dois, três e não sei mais quantos aneizinhos brancos saltaram dos pelos no ar.

O inseto voou até tomar razoável distância de mim, fez a curva e pousou na beira da cama ao lado. Outra dengue? Fechei o livro e lentamente movi a mão pra golpear o bicho.

- Alto lá!

- Como?

- Você ouviu. Alto lá! Ainda não piquei você, portanto não precisa me bater.

Esfreguei os olhos, cocei o nariz.

- Espero que tenha lavado as mãos.

- Como é? Olhe, meu senhor, mosquito não fala português e biruta é o presidente.

- Não me trate por senhor. Sou senhora.

- Que seja! E a que devo a honra?

- À natureza, que não está nem aí pra sua honra. Agora, se me permite, preciso de sangue pros meus ovinhos.

- Se vier, eu espirro.

- E eu com isso? O que vem do vírus não me atinge.

- Então, eu bato.

- Olhe, vou embora. Daqui a pouco você dorme e eu volto. Bons sonhos!

Saltei sobre o bicho, mas ele volteou minha cabeça e sumiu na escuridão do corredor. Fechei a porta, blindei-me com o lençol e, depois de tanto delírio, desejei a alegria de uma noite em claro.

*



*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Sobre um idílio

Já li de tudo um pouco: que 'Me Chame pelo Seu Nome' é uma história de amor, um drama gay ou a celebração nostálgica dos anos 80. Só não li o que o filme me pareceu. Imaginem vocês. A esposa de um professor universitário herda uma casa de campo na Itália e o casal passa as férias de verão lá com o filho de 17 anos, um aluno americano e amigos em trânsito. E o que eles fazem? Tomam banho de sol, lêem poesia, degustam frutas, tocam piano, passeiam pelo campo, discutem filologia, mergulham no lago, catalogam achados arqueológicos, fazem sexo. Tudo se desenrola sem pressa e com brio. A televisão é um detalhe no canto da parede, o telefone é um aparelho preso à tomada e a cidade mais próxima está fechada para o ócio. O cenário político da Itália dos anos 80 vem à tona e causa certa inquietação, mas o que empolga os convivas é a descoberta de restos de estatuária antiga no mar ali perto. Sim, é um filme que fala de coisas antigas, tão antig...