Passava das oito quando chamei Yasunari Kawabata pra dois dedos de prosa e estirei os pés na rede. Livreto com boa reputação, mas tão chato que, nem no tranco, pegou a leitura.
De repente, comecei a ouvir uns barulhinhos estridulando muro afora. Muito tarde pras cigarras cantarem. Levantei, enfiei a cabeça na fresta da janela e o concerto ganhou coro.
- Fora Bolsonaroooooo!
Só então lembrei que o atleta da República devia estar malhando a língua em público àquela hora. Ainda quis correr à cozinha e sacar a panela, mas a rede rangeu mais alto.
Governadores de todo o país, à esquerda e à direita, escutam a comunidade científica e adotam medidas semelhantes. O capitão, com três bilionários e um filho maluco, vai biritar.
Ia mergulhado no resmungo quando senti uma coceira no braço. Desci o olho e - vixe Maria! Um, dois, três e não sei mais quantos aneizinhos brancos saltaram dos pelos no ar.
O inseto voou até tomar razoável distância de mim, fez a curva e pousou na beira da cama ao lado. Outra dengue? Fechei o livro e lentamente movi a mão pra golpear o bicho.
- Alto lá!
- Como?
- Você ouviu. Alto lá! Ainda não piquei você, portanto não precisa me bater.
Esfreguei os olhos, cocei o nariz.
- Espero que tenha lavado as mãos.
- Como é? Olhe, meu senhor, mosquito não fala português e biruta é o presidente.
- Não me trate por senhor. Sou senhora.
- Que seja! E a que devo a honra?
- À natureza, que não está nem aí pra sua honra. Agora, se me permite, preciso de sangue pros meus ovinhos.
- Se vier, eu espirro.
- E eu com isso? O que vem do vírus não me atinge.
- Então, eu bato.
- Olhe, vou embora. Daqui a pouco você dorme e eu volto. Bons sonhos!
Saltei sobre o bicho, mas ele volteou minha cabeça e sumiu na escuridão do corredor. Fechei a porta, blindei-me com o lençol e, depois de tanto delírio, desejei a alegria de uma noite em claro.
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