Pular para o conteúdo principal

Sexto dia

Tudo vai se encaixando na rotina provisória e os poucos compromissos ainda pendentes terminam migrando para o zap ou o skype. No sexto dia, nada mais me tira de casa.

Ou tira.

Ao meio-dia, minha irmã ligou desesperada. Tia Mércia quer ir à rua! Fazer feira, pagar cartão e sabe-se lá o que mais. Em dois pulos, paramentei-me, fui lá e abortei a saída.

A essa altura do século, o supermercado exige pagamento em carne e osso da fatura. Quando a pandemia passar, depois do Presidente, o dono do Ideal há de se ver comigo.

Na lotérica, duas ou três pessoas faziam o balé da não-aproximação quando tomei o lugar na fila e, passando por todos, chegou mais uma velhinha desafiadora do mundo.

- Passei minha vida inteira no mato até que a família inventou de me trazer pra cidade. Nunca adoecei, não é agora que vou cair morta por causa de um bicho de nada.

E contava dinheiro, e lambia os dedos pra passar as cédulas, e ameaçava deuses e vírus com o indicador em riste. Quem quiser tirar essa aqui da rua, vai ter trabalho!

Pagar a conta não lhe bastou. Sentou-se no banco e lá ficou, explicando a cada um, cuja vez chegava, que o mato era forte e o bicho, de nada. Alguém falou em Polícia.

- Que venha! Que venha! Quero ver quem me bota pra dentro de casa!

Depois de mim, a fila se desfez. Sem platéia, a mulher enfiou o troco dentro dos peitos, abriu a sombrinha e se lançou na rua. Um, dois, três passos, deu com dois mofis na ladeira.

- Que foi, vovó? Tá com medo de nós? Nós num faz mal não. Vem com medo não que dá merda pra tu.

A valentona da lotérica arqueou as pernas, apoiou-se no muro e, como quem vê o Santo Anjo do Senhor na beira da cama, pediu a mim, para casa, a mais rápida das caronas.

*



*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Sobre um idílio

Já li de tudo um pouco: que 'Me Chame pelo Seu Nome' é uma história de amor, um drama gay ou a celebração nostálgica dos anos 80. Só não li o que o filme me pareceu. Imaginem vocês. A esposa de um professor universitário herda uma casa de campo na Itália e o casal passa as férias de verão lá com o filho de 17 anos, um aluno americano e amigos em trânsito. E o que eles fazem? Tomam banho de sol, lêem poesia, degustam frutas, tocam piano, passeiam pelo campo, discutem filologia, mergulham no lago, catalogam achados arqueológicos, fazem sexo. Tudo se desenrola sem pressa e com brio. A televisão é um detalhe no canto da parede, o telefone é um aparelho preso à tomada e a cidade mais próxima está fechada para o ócio. O cenário político da Itália dos anos 80 vem à tona e causa certa inquietação, mas o que empolga os convivas é a descoberta de restos de estatuária antiga no mar ali perto. Sim, é um filme que fala de coisas antigas, tão antig...