Tudo vai se encaixando na rotina provisória e os poucos compromissos ainda pendentes terminam migrando para o zap ou o skype. No sexto dia, nada mais me tira de casa.
Ou tira.
Ao meio-dia, minha irmã ligou desesperada. Tia Mércia quer ir à rua! Fazer feira, pagar cartão e sabe-se lá o que mais. Em dois pulos, paramentei-me, fui lá e abortei a saída.
A essa altura do século, o supermercado exige pagamento em carne e osso da fatura. Quando a pandemia passar, depois do Presidente, o dono do Ideal há de se ver comigo.
Na lotérica, duas ou três pessoas faziam o balé da não-aproximação quando tomei o lugar na fila e, passando por todos, chegou mais uma velhinha desafiadora do mundo.
- Passei minha vida inteira no mato até que a família inventou de me trazer pra cidade. Nunca adoecei, não é agora que vou cair morta por causa de um bicho de nada.
E contava dinheiro, e lambia os dedos pra passar as cédulas, e ameaçava deuses e vírus com o indicador em riste. Quem quiser tirar essa aqui da rua, vai ter trabalho!
Pagar a conta não lhe bastou. Sentou-se no banco e lá ficou, explicando a cada um, cuja vez chegava, que o mato era forte e o bicho, de nada. Alguém falou em Polícia.
- Que venha! Que venha! Quero ver quem me bota pra dentro de casa!
Depois de mim, a fila se desfez. Sem platéia, a mulher enfiou o troco dentro dos peitos, abriu a sombrinha e se lançou na rua. Um, dois, três passos, deu com dois mofis na ladeira.
- Que foi, vovó? Tá com medo de nós? Nós num faz mal não. Vem com medo não que dá merda pra tu.
A valentona da lotérica arqueou as pernas, apoiou-se no muro e, como quem vê o Santo Anjo do Senhor na beira da cama, pediu a mim, para casa, a mais rápida das caronas.
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