A quarentena bateu à porta, entrou em casa e disse que veio para ficar. A princípio, nem dei por sua presença. Mas hoje as coisas começaram a ficar um pouco diferentes.
Moro sozinho em um edifício pequeno, com seis apartamentos. Um está desocupado, quatro estão mergulhados em silêncio. Cá estou, comigo e meus livros.
Ontem, o movimento na rua parecia ser o de uma manhã de sábado; hoje, parecia o de uma tarde de sábado - suponho que amanhã acordarei no domingo. O que vem depois disso?
Não tenho televisor. Escuto rádio, acompanho podcasts e leio notícias nos jornais. Parentes e amigos estão mantidos à enorme distância de um zap. Todos só falamos do vírus.
Quando a rádio começou a transmitir informação ao vivo do Ministério da Saúde, pensei na cena banal de um filme de guerra que nunca esqueço. Não lembro qual era o filme.
A cena: um homem estava pra colocar um disco no gramofone quando a rádio interrompeu a programação e anunciou a invasão estrangeira. O homem ficou paralisado.
Ainda não estou paralisado. Preparo café, almoço, jantar. Lavo roupa suja. Certifico, reviso autuações e concluo processos eletrônicos. Faço agachamentos, apoios de frente e polichinelos.
Em dois dias, derrubei todo o estoque de picolés que havia providenciado para o confinamento. Mas o homem paralisado não me sai da cabeça e, não sei por que, me fez chorar.
No fim da tarde, alguns jovens insistiram em sair de casa e começaram a jogar na quadra da praça aqui ao lado. Gritavam e trocavam insultos, alheios ao risco da morte.
Então, senti a tremenda ausência de minhas irmãs e desejei que estivéssemos juntos, na sala da casa dos nossos pais, para atravessar com jogos e insultos as tensões desta noite.
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