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Postagens

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Papa Bergoglio

O jovem Jorge Mario Bergoglio era filho de um italiano que emigrou para Buenos Aires fugindo do regime de Mussolini. Técnico em química, trabalhou em fábrica, foi professor de literatura e namorou antes de tornar-se padre. Como jesuíta, seu ministério conheceu dois momentos distintos. Após breve ascensão, chefiou a congregação na Argentina e teve atuação controversa nas relações com o regime militar. Caiu no ostracismo e dele ressurgiu diferente. Na segunda fase, atuou como bispo em Buenos Aires, alinhando-se a uma Igreja engajada em pautas sociais, mas sem engajar-se em militância partidária. Nada muito longe da velha doutrina social da Igreja, iniciada por Leão XIII na transição para o século XX. Jorge Bergoglio, portanto, foi um homem que conheceu na própria pele, ainda jovem, a vida de um operário e o dilema de um líder em momento crítico. Trazia consigo a consciência de que cada humano é um ser em contínua evolução. Uma carta sua, já quando Papa, faz pensar sobre isso. O Papa Berg...

Francisco, bispo de Roma

  Há 50 dias, a freira Raffaella Petrini tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Governadora do Vaticano. Pouco antes, outra freira, Simona Brambilla, tornara-se a primeira mulher a chefiar um dicastério da Cúria Romana. Este delicado movimento no xadrez milenar da Igreja Católica havia sido feito por um homem que, ao ser anunciado o primeiro Papa da América, preferiu apresentar-se apenas como bispo de Roma. O detalhe pode passar despercebido, mas não é ingênuo em uma instituição cujo poder está assentado não apenas em patrimônio e diplomacia, mas também, e sobretudo, na força dos símbolos. Jesuíta, com acesso à formação católica de elite, Jorge Mario Bergoglio sabia que a Igreja e o papado têm uma História e nem tudo o que parece ter sido sempre, sempre foi como hoje é. No princípio, o bispo de Roma era apenas um dentre outros bispos e compartilhava com seus colegas de Alexandria, Jerusalém, Antioquia e Constantinopla a liderança e o prestígio primordiais. Só no final do s...

No leito de Procusto

Vira e mexe, o velho Nondas dá um susto na prole. Ainda ontem, baixou hospital, com o potássio vibrando mais que bateria de escola de samba às portas do Carnaval. Ficou para averiguações. Fiquei eu para uma longa jornada. Tudo controlado, o velho Nondas relaxado, cobri seus olhos com o famoso paninho, que nos acompanha há gerações. Repassei os meus olhos no Ésquilo que levei na bolsa e - imaginei que dormiria. A cama que a UTI reserva ao acompanhante é, na verdade, um sofá de dois lugares e braço nenhum. Quem deita, vindo de revisitar o mundo grego, teme logo que seja Procusto o dono do hospital. Já fazia umas duas horas que eu oscilava entre as pernas recolhidas e os pés no chão quando a cabeça quis vencer a batalha dos membros e decidir, pelo sono, senão a melhor, a última posição. Então, alguém gritou. Saltei em olhos e orelhas e pernas. O velho Nondas dormia, nem sinal de Procusto. Algum paciente flertava a morte, o filho pedia socorro. Carreira de batas no salão iluminado. Outras ...

Como posso ser triste se, em 2024,

tive acesso, em sonho, aos manuscritos perdidos de quatro dos cinco cantos dos Retornos de Agamêmnon, Menelau e Helena, tendo ouvido dizer que o quinto canto encontra-se no Egito; vi brotar uma flor de antúrio, vermelha, compensando outras cinco que morreram, pálidas, e há um mês mantenho vivas mais cinco flores, ainda não descoloridas pelo verão, que insiste em voltar; consegui ler um diálogo de Platão em Grego, com a ajuda de dois dicionários, dez colegas de sala e um professor que, por sua vez, aprendeu a ler Platão com José Gabriel Trindade e Juvino Maia; vi brilhar, vindo de Antares, a luz que de lá saiu pouco antes de Atahualpa tornar-se o décimo terceiro Sapa e mandar afogar seu irmão Huáscar, o décimo segundo Sapa, no rio Negromayo; Maria Luísa, a segunda sobrinha, aprendeu a me chamar de Thiago e revelou à mãe que, embora nem sempre consiga lembrar meu nome, gosta de mim e quer voltar a se hospedar em minha casa; não consegui escrever um único verso, mas li os 1781 versos de A...

A chegada do verão

As estações do ano são quatro e seus nomes são primavera, verão, outono e inverno. Assim diziam os livros de geografia da 5ª série, naqueles 30 anos longínquos que ficaram muito, muito atrás. Como não sou geógrafo, reescrevo a Terra com a ciência das metáforas e, com a licença da crônica, digo que as estações do ano, aqui de onde suo, são duas, apenas duas: verão e menos verão. Verão é o que sentimos chegar por estes dias. No Brasil, vem com o primeiro turno das eleições em anos pares, ou às vésperas do dia das crianças e da padroeira e da invasão de Colombo, nos ímpares. De repente, janelas e portas abertas não servem mais, o ventilador de três marchas deixa de dar conta do serviço e, aí, a gente vai tomar banho e sai suado do banheiro só de ver a toalha estendida. Um sujeito descido de 500 metros de serra como eu começa a sentir falta dos dias de menino, coberta e chocolate quente. Mas o mundo anda se aquecendo doidamente - até Campina se perdeu. Resta enfrentar estoicamente a razão...

Escambos

Uma festa de 15 anos. Era o embalo do sábado à noite. Paletó ao Sol para tirar o mofo, gravata se espreguiçando na cama e os sapatos de festa pedindo uma visita ao engraxate no Café Aurora. Ir ao Centro é voltar ao Centro. O Centro da loja de vovô, da Defensoria Pública na sobreloja do Lucas, onde estagiei em Direito & Miséria, o Centro da Cultura - não a de Eva Herz, a de Juarez. "Aceita pix?" - perguntei ao engraxate, que não era mais o mesmo homem sisudo por trás de um bigode, cujo nome esqueci. Faz anos que não vejo dinheiro e já nem lembro a senha alfanumérica de saque. "Pode deixar que a gente se resolve". Dois pés na fila. Fui fazer hora na livraria de minha juventude, onde desejava os livros que não podia comprar e comprava os livros que não desejava ler. A desgraçada sorte de ser um vitoriano nos trópicos. De cara na entrada, uma epopéia de Gerardo Mello Mourão foi pedindo licença para ir comigo e cantar. "Ai flores do verde pinho / eu não quero es...

A tão aguardada lista dos melhores livros desgraçadamente não lidos de 2023

À beira de 2024, fiz uma lista das pendências de 2023. Dois dedos de prosa com o Bei de Túnis, três palavrinhas com as quatro sobreviventes de Canudos e cinco voltas ao mundo em seis dias. Eis o começo da lista. Mas nada se compara ao espanto que eu mesmo sofri diante da lista dos livros que deixei de ler, embora a oportunidade me tenha sido oferecida por três livreiros antigos de Patos, Sousa e Piancó. Relacionar os livros talvez seja uma experiência melhor que lê-los, assim como praticar os pecados capitais ou transgredir os Dez Mandamentos é mais prazeroso que ler e reler o sacro elenco. Assim sendo, em 2023, deixei de ler: 1. Um manuscrito andaluz do século XII, contendo a tradução para o árabe do livro de Aristóteles sobre a Comédia, acrescido de comentário profético sobre certo palhaço de bigode e bengala. 2. A autobiografia autêntica de Zé Limeira, editada pelos irmãos Garnier no Rio de Janeiro em 1789, com apresentação de Bráulio Tavares e tradução para o russo medieval por Ast...

Qual é o seu signo?

Sagitário, respondo, quando perguntam, sem convicção alguma. Creio tanto nos signos quanto em Javé ou Brás Cubas. São criações que os humanos usamos para lidar com os abismos da consciência. Quando eu nasci, fazia 145 anos terrestres que a estrela mais brilhante de Sagitário havia emitido a luz que, no inverno anterior, meus pais poderiam ter avistado à noite, imaginando meu nome. Quando chegar à Terra a luz que de lá saiu no instante em que dr. Everaldo me arrancou à fórceps do ventre, não haverá mais qualquer lembrança dos anos que eu terei vivido neste girador. E as estrelas de Sagitário, ou de qualquer constelação, explodem todas tão distantes umas das outras e a diferentes lonjuras de nós, que só a perspectiva insuficiente dos antigos explica esta ilusão. A ilusão de que o universo, sendo dotado de uma razão cósmica, conspira em favor ou desfavor de exatamente uma espécie, dentre milhões, habitante de um planeta banhado, de perto, por uma anã. Mas aí me pego pensando em um detalhe...

O sonho de Alberto

Onze anos atrás, no Rio de Janeiro, avistei no mesmo dia Alberto da Costa e Silva, Evanildo Bechara e Lêdo Ivo. Até hoje, tento entender, desse triplo encontro, o detalhe do que não ocorreu. Tomei coragem e me aproximei de Evanildo Bechara e Lêdo Ivo. Com um, falei sobre Anézio Leão, o gramático campinense de quem ele tinha vago conhecimento, mas não a rara gramática. O outro, quando abordado, foi logo dizendo: "um jovem querendo falar com um velho poeta só pode ser outro poeta!" E soltou aquela risada do menino maroto que queria ser nosso Rimbaud. Diante de Alberto da Costa e Silva, porém, paralisei. O velho diplomata foi gentil com meu silêncio. Parou e me estendeu os olhos da escuta, aguardando as palavras que, bailando na ponta da língua, recuavam, suadas e coradas, para a coxia. Entramos no elevador, descemos juntos quatro ou cinco andares. Eu empurrava as palavras para o palco; elas tropeçavam, esperneavam e não iam. Ele quase se oferecia para traduzir a luta. O térreo ...

Sobre cachorros e cães

Tempos atrás, ia voltando a pé da padaria quando, a cinco passos do portão, vinha passando uma senhora com o cachorrinho de mimação. A mulher notou que me detive, paralisado de medo. Criança de braço, fui atacado com minha mãe por um vira-lata. Dos 3 aos 10 anos, estudei em uma escola que tinha dois cachorros brabos como auxiliares de disciplina da professora linha-dura. Tenho mais trauma de cachorro que um judeu, em 1945, de campo de concentração. Para mim, são forças cruas da natureza, sem medo de infâmia ou polícia, sem compromisso com a civilização. Mas a mulher não me deixou explicar. Dedo em riste, passou-me sermão sobre a vergonha de temer um serzinho inofensivo e saiu chutando o vento contra mim, transformado em especista, canalha. Desde então, dei para espiar essa tendência de os cachorros andarem aí pelas ruas como gente e, nadando na contra-corrente, termino vendo dois ou três tubarões por trás das sardinhas. Um exemplo. Sempre que um criança novinha se desgarra do responsáv...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...