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Onde estão os pára-quedas?

Enquanto o leilão da presidência da República se desdobra, entre o Jaburu e a Jararaca, o cuspe e o descarrego, fico cá pregando metáforas com meus botões, não sei ao certo em qual das casas. E vejo a República surgir, das nuvens de ainda-verão, como um avião atravessando a turbulência em seus três eixos. De asa a asa, sacoleja a economia de um lado e chacoalha o sistema político do outro. Na longitude, a imprensa mete o nariz nas fendas do ar e, aterrorizada, a cauda da opinião pública grita. Lá dentro, na cabine infestada de comissários, pilot@ e copilot@ tentam se manter na vertical, disputam os pedais e o manche, ameaçam guinadas no leme ao nariz e à cauda, enviam torpedos. Balancem, asas! Descabele-se, tripulação! Vomitem, passageiros! Eis o avião da República, hoje como ontem. Obra extraordinária do engenho humano, tão forte quanto frágil, tão sustentável no ar quanto arremessável contra o mar, o monte, o vácuo das estrelas. Onde viajo? Por quem ...

Quatro elementos

Não vai fácil, nada fácil, a vida do cronista. Um impeachment aqui, uma ponte que cai no mar, um vice de sorte pelo caminho, uma rainha que faz aniversário acolá. Sorteio o tema, começo o texto e... Nada, nada fácil. O texto firma o pé, cruza os braços e, como menino birrento em dia de ir ao dentista, murmura e tritura, regurgita: aqui não saio, aqui ninguém me risca. Fosse isso apenas, haveria o consolo da poesia; mas, se o cronista desanda em vertigem, o poeta nem anda. Em pane. Em pane, o poeta. Canta, ó Musa, canta! Pior, muito pior que isso. O computador foi dormir e não mais ligou. E a crise no bolso, não melhor que na mente, vai deixando sem adjunto quem já se vê sem o objeto. E a cena se fecha em um riso. Mecânico e lambuzado de tinta, este riso. Riso da velha Remington Ipanema, que engole poeira num canto, e me diz: "foi você quem não quis mais". Vou até ela, faço a corte. Ela exige apenas tinta nova e flanela. Dou-lhe uma, também a s...

Engano

Os leitores me perdoem por não dar outro pitaco neste momento tão grave da nação. Não, nação não, que isso cheira à pilhagem do século XIX. Neste momento tão grave do país. Melhor assim, não? Mas tenho meus motivos; dois, pra ser exato como um mais um. O primeiro é que também eu tenho meus ideais políticos, em nome dos quais ergueria bandeira e marcharia para o fim dos tempos. Mas são tão... tão... idiossincráticos - pra ter um pouco de boa vontade comigo mesmo - que só em romance ou epopéia eles merecem ser admitidos. Confessados, talvez seja a palavra mais pilhável. O outro é que gastei meus últimos insultos contra a mocinha do cartão de crédito. Não que a granada, neste tipo de guerra, perca o uso depois de atirada, mas conservo lá certas vaidades de escritor. Sem arma e armado de imaginação, calo na política, portanto. Não dou pitaco, mas tenho o pito. Qual? Ora, o que passei na mocinha do cartão de crédito. Essa história, eu lhes conto, por comp...

Esboço para um drama político em três atos, que seria trágico se não fosse um possível fim cômico

Primeiro ato Cena 1 A princesa Vana sucede o pai, rei Lindu, e assume o poder. Com fama de independente e temperamental, manda decapitar alguns cortesãos corruptos do pai e recebe elogios no terreiro do Paço. Cena 2 Insatisfeitos, muitos cortesãos vão reclamar ao rei Lindu, que goza de retiro no campo e na praia com ajuda de súditos. O rei os convence de que a rainha está apenas querendo se afirmar. Cena 3 A rainha Vana faz manobras arriscadas na economia e continua desagradando os cortesãos do pai. Surge insatisfação popular, a rainha tenta responder, mas os cortesãos escondem os decretos. Segundo ato Cena 1 A rainha enfrenta um plebiscito sobre sua permanência no trono. Enfraquecida pela economia e debilitada por escândalo de furto na cocheira real, pede ajuda aos cortesãos do pai que evitava. Cena 2 A rainha Vana assina lei que promete benevolência com quem delatar esquemas corruptos no Paço. É confirmada no trono, mas, em s...

Lição de Manaíra

Se a experiência é o fundamento do conselho, tenho pouco conselho, já que pouca é a experiência. Mas uma tenho, se tenho alguma; e o conselho, se não é muito, há de ser alguma coisa.  Eis o conselho: que ninguém se mude para Manaíra, em João Pessoa, sem ter pelo menos um quarto de dúzia de conhecidos zelosos. Passo à experiência e deixo a vocês que me digam se passa o conselho. Voltei a viver em Manaíra pela quarta vez em nove anos.  Há por aqui como que uma voz me dizendo: vem, e fica. Juro que a ouvi dia desses naquela relaxada pracinha que estragaram com o nome de desembargador sei lá qual. Vou cortar caminho pela vez de agora. Deixo as outras três para outras três crônicas. Quando vim conhecer o apartamento, o senhorio alertou. O bairro é bom, as ruas tranqüilas, mas você sabe né, semana passada invadiram o edifício ali do outro lado da rua, estamos todos sujeitos. Primeiro amigo zeloso, de honestidade mais que comprovada. Fosse...

Não é agosto de 54, mas

Lula se equipara sempre e tanto a Getúlio que, quando ficou evidente que a Polícia Federal o encontraria de pijama para mandar má notícia, eu passei a me perguntar: só morto ele sairia do ABC? Agora, já sei e sabemos todos que ele saiu e voltou, está vivo. Como já sabia e sabíamos todos que ele é vivo e, não tendo resposta racional para os indícios de que andou em delito, foi ao teatro. No teatro, fez uso da persona que parece lhe restar: o pobre coitado que venceu na vida, chegou ao topo e agora se vê ameaçado pela elite [a que, em alguns graus, ele próprio se integrou]. Provocou as reações apaixonadas de sempre. Entre os que se revoltam contra ele, entre os que se revoltam contra os que se revoltam contra ele, entre os que se revoltam sabe-se lá contra o que mais. Sob brados retumbantes, só consigo ter uma reação. Desço ao escritório, tiro O Aleph dos degraus e leio Os teólogos, aquela jóia de brilho discreto que Borges cravou na coroa da liter...

Um caso ultrapassado

Trinta e dois anos depois, cedi à pressão. De repente, eu me vi com uma célula tão viva na mão que, se for a Florença e passar em frente à Academia de Belas Artes, vai fazer pose de estátua, franzir a testa, olhar de banda e me dizer: fala, homem! Até anteontem, meu papo com a mocinha da loja de celulares era bem rápido: o mais barato, com teclado pra discar e resistência a queda, por favor. Nesse passo, mantive a sanidade enquanto pude. Mas aconteceu de - quanto vacilo! - eu começar a padecer de interesse por fotografias. Meio louquinhas, é verdade, só pra ensejar legendas ainda mais birutas. Mas da foto à boa câmera, bastou um clique. Mal tirei o bichano da caixa, a primeira queda. Mal o levei pra colocar coleira e focinheira, o segundo baque. E ainda nem havia pagado a primeira prestação quando quase o atirei no carro da Emlur! Mas vocês logo verão que o motivo da ira é justo e não me recomendarão sequer meia hora no caroço de milho assad...