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E o Rio continua sendo

Dois ou três amigos me perguntam sobre o que penso da intervenção no Rio e eu penso que, além de ser um desconfiado, estou apenas mal informado pelos jornais. Os jornais me dizem, por exemplo, que houve doze ações do Exército no Rio desde 2008 e o comandante Eduardo Villas Bôas avalia o resultado como desgastante e inócuo.  Quero então pensar que o Exército articulou com o governo a substituição de ações policiais pontuais pela intervenção direta e sistemática no comando do aparelho de segurança. Mas aí vem o general Braga Neto e diz que acaba de receber a missão e está planejando como cumpri-la. Uma decisão dessa envergadura não foi integralmente traçada? Os jornais também me trazem relatos de moradores de comunidades dando conta de que as doze ações de garantia da lei e da ordem não separaram bandido de gente de bem. Invasões de domicílio, restrições às liberdades fundamentais, tratamento humilhante e estupro compõem o rol das violações ...

Churchill literário

Muitas questões irrelevantes me inquietam e uma delas é esta: por que diabo tenho uma queda por Winston Churchill, se sou um pacifista e de britânico não tenho nem a Escócia? Por muito tempo, achei que isso era culpa daqueles livrinhos com a biografia de grandes líderes que vovô José me fazia ler na infância. Mas já li tanta coisa mais adulta depois disso. E sempre me pego pensando que, se eu fosse transportado para a Inglaterra de 1938, provavelmente apoiaria a paz de Neville Chamberlain, e não os brados de guerra de Churchill. Por que, então, essa irresistível tentação de me informar sobre o homem? Mais que isso, por que essa curiosidade intelectual que, no fundo, tem o irracional quê do fascínio? Não sei se tenho caminhado em direção a uma resposta ou se, muito melhor que isso, tenho aprimorado minhas perguntas. Mas sei de uma coisa que divido aqui com vocês. Nos últimos anos, parece recuperar corpo certa tendência a tratar do Churchill literári...

Cony cansado

Carlos Heitor Cony vinha cansando. Suas últimas crônicas pareciam cafezinho requentado com a própria borra. Ainda assim, eu gostava de ter dois dedos de prosa com elas. Ele era o caso do cronista que passou de pai pra filho. Meu pai o lia desde os anos 60. Era e é fã daquela combinação de humor ácido e desencanto com erudição de seminarista. Não lembro ao certo quando foi que ele me passou o gosto. Na verdade, parece que desde sempre Cony esteve entre nós, como um amigo da família que vem papear no almoço. Ainda hoje, quando me liga entre o finalzinho da tarde e o comecinho da noite, meu pai pergunta: - Leu Cony por esses dias? E dá uma gargalhada comentando esse gracejo ou aquela tirada que, de repente, espantam a náusea e o tédio. Eu rio junto, com aquela risada que só Nelson Rodrigues me tira. Tudo bem que a reputação literária de Cony se firmou no romance. Mas, cá entre nós, tenho uma preguiça danada de ler romances. Prefiro um calhamaç...

Contra o calor do zap

Vocês vão me dizer que sou ranzinza, e eu não lhes tiro a razão. O fato é que, coisa de uns seis meses atrás, bateu não sei que revolta e eu me retirei dos grupos de whatsapp. Não de todos, que estou longe de ser um radical. Mas só fiquei na meia dúzia que congrega os íntimos, os que moram longe de mim e os que não fazem relatório até do espirro. A coisa toda foi indolor e, exceto por um ou outro amigo receoso de ter me ofendido com o papo de mesa de bar, ninguém deu conta de haver menos um naquelas muvucas. Mais que isso. Também avisei aos amigos que não discutiria mais nada sério pelo zap e, se alguém insistisse nisso, eu chamaria para um drink ou deixaria o sujeito falando sozinho. Agora, se vocês me acharam ranzinza, eu só lhes digo uma coisa: a vida por aqui ficou tão mais feliz que já considero até a possibilidade de ir à praia e dar umas braçadas no mar. Talvez tudo isso não passe de um defeito meu, que não tenho paciência para telecomunicaçõe...

Strudel ao pé do muro

O século passado estava nas últimas quando fiz minha primeira e única viagem à Alemanha. Durou coisa de umas três horas e o trajeto foi pouco mais que um pulada de muro.  Tudo bem, até que vi demais Jornada nas Estrelas na extinta Manchete, mas não é de teletransporte que estou delirando. O negócio é que meus vizinhos do fundo eram alemães. Chegaram ali pouco depois que minha família e eu nos mudamos pra casa da Bela Vista e, durante um bom tempo, não passamos de estranhos dividindo o muro do quintal. Até que um belo dia Ulrich esteve lá em casa para tratar não sei de que e - bum! A imagem daquele homem esguio, que falava um idioma exótico, entrou-me na fantasia de menino.  Dali a um tempo, minha mãe e eu topamos com ele e a esposa no Iguatemi. Conversa vai, conversa vem, Gabriele nos convidou para um almoço em sua casa, dia tal, hora tal. Foi aí que se deu a viagem. Fomos à Alemanha dando a volta no quarteirão e entramos no país atravessand...

Dr. Virgílio, um humanista

Quando dr. Virgílio Brasileiro me viu pela primeira vez, eu estava chorando e ainda não era sequer capaz de enxergá-lo. No dia seguinte, eu estava pálido e ele viu que minha primeira semana de vida seria uma batalha contra o tempo, pela sobrevivência. Escapei graças a ele, aos meus pais e ao sangue de um produtor de cana e de um soldado do Exército. Talvez por isso eu seja um pacifista. Nos anos seguintes, dr. Virgílio voltou a me ver tantas vezes quantas foram minhas febres, dores e fraquezas de menino não muito forte. Depois fui crescendo e se deu a mudança: eu passei a ver dr. Virgílio. Ai, não. A coisa se deu ainda ali, no consultório da João Alves de Lira. Fui levado por meu pai a uma consulta. Quando entramos na sala, dr. Virgílio estava lendo um livro de literatura. Sentamos. E ele disse: - Epaminondas, um médico não pode entender apenas de Medicina. E ele era curioso de muita coisa. Uma vez, eu o encontrei na rua e ele, que estava estudando russo, veio...

A mão invisível

Ela está em todo canto deste planeta, é mais presente que o mais onipresente dos deuses, porque veste, alimenta e dá abrigo, ou nega tudo isso até mesmo a quem nela não crê. É a Geni pelo avesso, que nos mima com facilidades na cama, no banho, na mesa ou na palma da mão, para depois ser insultada pelo que cobra em sangue e suor na canela. Nem sempre esteve aí. Senhora recente de humanos, seus não mais que três séculos sequer fazem cócegas no rival que, mesmo milenar e surrado, continua dando (pro) gasto. Aliás, embora vivam às turras no mercado, os dois se encontram o tempo todo no banco, fazem a corte e não é raro que se casem ora com pompa, ora com muita discrição. Há quem se derreta por ela e pense que sem seus afagos e suas bofetadas, vamos parar na sarjeta. Mas há quem veja que, não fosse o rival, muita gente nem sairia da sarjeta. Já tive cá uns encontros com ela. Em meu primeiro emprego, por exemplo, ela se negou a assinar carteira e descontar a P...