Era o que faltava para o fim do trabalho remoto, mas o tribunal o prorrogou por tempo indeterminado e, agora, o que tinha prazo para acabar, parece se tornar mero horizonte.
Mas estar em casa é bom. Depois de anos ausente, voltei a adubar o quintal e, não demora muito, lanço horta onde um dia nasceu, cresceu, frutificou e morreu o velho abacateiro.
Algumas amigas mulheres vêem nisso nada mais que o pretexto para estar sob os cuidados da mamãezinha. Já eu vejo, no que elas vêem, nada mais que os ecos do machismo.
As configurações patriarcais não foram integralmente baixadas na casa em que me criei. Havia essa ou aquela idéia sobre a virgindade das filhas ou a macheza do varão.
Mas, na casa da minha infância, pai e mãe desempenharam papéis nada tradicionais. O pai sempre foi a figura do afeto e do cuidado, o abrigo contra o Ordem e Progresso materno.
Era meu pai quem nos acordava pra escola, preparava o café, repassava as lições, levava para os compromissos, deixava bilhetes carinhosos e gastava suas horas com paparicos mil.
Aliás, assim são os homens de minha família paterna. Se alguém quiser comprar briga feia com qualquer deles, diga que só uma mãe é capaz de fazer isso e aquilo pelos filhos.
Vinte anos atrás, um amigo foi estudar em São Paulo e quis me levar junto. Minha mãe sorria e media as distâncias encurtadas para o Supremo se eu fosse bacharel pela USP.
Meu pai pranteava a vida infeliz que teria se um filho se afastasse de suas asas. Melhor seria um bacharel local e sem glória, mas que jogasse gamão com o velho a qualquer hora.
Eu fiquei. Saí apenas de uma capital para a outra da Paraíba. E minha mãe levou anos para digerir que o filho, a cada escolha feita, tenha sempre abdicado de ser muito grande.
O fato é que, quando a figura materna me vem à mente, o que eu vejo é Napoleão Bonaparte montado em seu cavalo a caminho de conquistar a Rússia ou derrotar a Inglaterra.
Muita psicanálise se passou até eu entender e admitir que, com minhas pobres inclinações artísticas e filosóficas, jamais alcançarei a grandiosidade soberana desta Mãe-Imperatriz.
E é com ela que passo a quarentena. Para descrença de muitas amigas mulheres, sou eu quem cozinha e passa o café. Mas hoje minha mãe decidiu fazer ela a sobremesa.
Uma torta de queijo com cobertura de geléia de morango. Açúcar dos bons para a formiga que sou. Comi de lambuzar os beiços e fui botar a cuca pra rodar na rede da tarde.
Em algum canto da cabeça, vi Napoleão desmontado e sem armadura e, como naquela música de Adriana Calcanhotto, lembrei que até Bonaparte tem seus dias de paz e ternura.
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