Nem sei de onde veio, sei que uma moleza bateu do meio pro fim da tarde de ontem e, à altura do jantar, o cansaço era tamanho que a população de casa estremeceu. Tem febre?!
Nada de febre e, graças a isso, fui poupado de me isolarem no quarto, passarem a chave e a jogarem na fossa. Mas foi para o quarto mesmo que me retirei. Deitei, dormi - e sonhei.
Não é todo dia que se tem sonho completo, desses com introdução, desenvolvimento e conclusão, como se fosse uma redação escolar. E ainda por cima com figurões da História.
Aliás, minto. Volta e meia, eu me vejo metido, em sonho, dentro de alguma dessas confusões épicas. Já estive na Revolução Cubana, na Segunda Guerra, na Batalha das Tainhas.
Pena que não sou eu quem os escolhe; são eles que, livres e soltos, vêm a mim. Já tentei muito ir a algum Conclave. Chego a ler sobre o de 1903, antes de dormir, pra ver se forço o sonho dos sonhos.
Em vão.
O sonho é soberano. E, ontem, sem dar motivo, ele me levou ao Rio de 1919. 26 de julho de 1919. Bem no meio da gripe que matou 35 mil brasileiros, inclusive o presidente da República.
Morto Rodrigues Alves, tomou posse Delfim Moreira e convocou eleições. Novamente candidato, Rui Barbosa viu frustrar-se pela quinta e última vez o sonho da Presidência.
Na véspera da posse de Epitácio Pessoa, o velho Rui meteu-se no fraque, poliu a língua e disparou São Clemente afora para uma audiência com Delfim Moreira no Palácio do Catete.
Foi aí que entrei no sonho. Eu era o motorista do homem. Chegados ao Catete, o doutor me deu ordem de estacionar, saltar do carro e entrar com ele no gabinete do presidente.
- Meu jovem, vou lhe mostrar a verdade, nua e crua.
Quando entramos na sala, demos com Delfim Moreira escondido por trás da cortina. Pode sair, Delfim. Sou eu, Rui. O presidente saiu, tremendo e chorando como uma criança.
- Pensei que fossem aqueles judeus comunistas alemães!
Rui Barbosa aproximou-se de Delfim, deu-lhe um abraço solene e o ajudou a se deitar no divã que ornamentava a outra metade do recinto. Vim apenas dizer adeus, homem.
O sonho já ia se apagando ao som do estômago, que me despertava para uma corrida urgente ao banheiro, quando ainda pude ouvir Rui Barbosa, o Águia de Haia, lamentar:
- Até maluco é presidente da República, menos eu!
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