História, 6 de abril de 2020.
Prezado Jair
Vai desculpando a sem-cerimônia com que te dou este pito, tchê, mas por enquanto os avanços tecnológicos daqui ainda não alcançam os daí. Hei, portanto, de ser curto e grosso.
Vago abichornado desde quando notei que deste para posar no gabinete do Alvorada com uma foto do Juscelino Kubitschek às tuas costas. Bah! Que tresloucamento é este?!
Admito que o governador foi um dos poucos que me apoiaram na hora da morte, mas verdade seja dita: o Juscelino foi cassado e saiu com fama da ladrão. Que tu tens nos miolos?
Tira logo o Juscelino e me põe aí como teu guarda-costas. Lembra que por causa de um guarda-costas naufraguei. E acolhe o conselho que te dou: família no palácio é ratoeira.
Tive formação militar, sempre desconfiei dos políticos e, uma vez alçado à magistratura máxima do Brasil, contei com os serviços das melhores mentes da época no meu governo.
Fui golpista, ditador e presidente democrático, aprendi a desvestir as meias sem descalçar os sapatos, sobrevivi a golpes, revoluções e atentados, caí e voltei, voltei e morri.
Ninguém melhor para te alertar neste momento, tchê. E te alerto. Os militares, sobretudo os legalistas, são altamente ciosos da autoridade moral do Presidente da República.
Quando a autoridade moral está perdida, não adianta trocar ministro, abusar dos meios de comunicação ou soltar dinheiro nas mãos do povo. Os generais tomam as rédeas para si.
Vê o Mascarenhas! Vê o Castelo! Legalistas até o pescoço, ou a falta dele, mas conspirando para me encurralar, em face do que consideravam ser a desmoralização do comando.
Antes que tu possas dar um tuíte ou gritar pelo Olavo como meus tataranetos pela mamãe, Braga Netto estará com os coturnos na tua mesa, para dar aparência de ordem na casa.
E sabes por que terminei assim? Tive as melhores mentes ao meu serviço, mas desconfiei de todas elas e, ao fim, tudo o que me restava era a família me aprontando rabioscas, tchê.
Estás na pior, não sei ainda se tanto quanto eu em agosto. Ou sei. Porque eu tinha miolos, tchê, dos bons. Mas tu, barbaridade! Tu és bronco como uma galocha acalcanhada.
Teu,
Getúlio.
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A carta acima me foi passada, via WhatsApp, por um leitor gaúcho que, médium de família de médiuns mineiros, atestou tê-la psicografado hoje, às cinco da tarde, em São Borja.
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