Às seis da tarde, que podia ser noite, fosse o mês de inverno, eu estava banhado por ordem inapelável de vovó, quando o rádio de vovô dava a senha para o cuscuz com leite e açúcar.
Decolores / Decolores é a primavera florindo caminhos / Decolores / Decolores são todas as flores são os passarinhos / Decolores / De colores é o arco-íris, caminho de luz...
Mas isso era trinta anos atrás. Hoje, quem tocou às seis foi o telefone fixo. Não sei vocês, mas eu sempre espero emoção quando o fixo toca. Um agiota, um trote, uma alma penada?
- Residência de lady Fook. James, o mordomo.
Do outro lado da linha, a voz fica suspensa, os pelos da nuca se arrepiam e o infeliz pensa no tamanho da conta, ao fim do mês, por causa de um minutinho de equívoco pra Inglaterra.
- Boa noite. Aqui é o Ministério da Saúde.
Alto lá, que hoje o suspense foi meu! O governo me ligando, e não era o Ministério da Fazenda pra cobrar a declaração do ano, nem um olavista maluco com rol de censuras e queixas.
Queria saber quantos moradores havia na casa, se alguém tinha tossido, ardido em febre ou respirado como Cristo na cruz. Não, senhora, aqui já estamos prontos para a próxima.
A voz era de mulher e parecia com a de vovó, o que me levou a Decolores, que ficou rodando na cabeça enquanto a voz repetia mil e uma recomendações para matar o vírus na porta.
Ao fim de tudo, quis esticar o papo, perguntar pela saúde da madame e trocar essa ou aquela impressão sobre o galã, digo, o ministro. Mas a voz era programada. Nem aí pra mim.
"Se quiser ouvir novamente as recomendações..."
Água fria na fervura. Desliguei o telefone, acessei o Spotify e voltei ao trabalho. Às seis horas, ligam chefe, advogados, partidos e vozes gravadas, a Bolsa fecha em altos e baixos...
Mas algo, que não sei se vem do celular ou de uma esquina do peito, vai cantando tão baixinho que quase não escuto: Viva a vida! / Faz o mundo ficar mais bonito no seu coração.
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