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60 anos

Brasília já rendeu de tudo um pouco ao Brasil. História, geografia, dívida pública, grilagem, anedotário, cada departamento da vida nacional teve seu quinhão na capital.

E muito se disse, entre lenda e verdade, sobre por que levar o governo para o cerrado. José Bonifácio, a Constituição, empreiteiras, montadoras, porcentagens, Toniquinho etc e tal.

Gosto de pensar em uma das justificativas de Juscelino: despachando do Catete, o presidente da República terminava sendo, em não poucas ocasiões, apenas o prefeito do Rio.

Uma manifestação contra o aumento da passagem e o vice ou algum general já mandava fazer o terno de posse. A propósito, Autran Dourado conta uma boa em Gaiola Dourada.

Secretário de Imprensa de JK, o escritor mineiro recebeu de Darcy Ribeiro um pedido de audiência. Darcy queria propor ao presidente a criação de uma universidade na nova capital.

Ao saber do plano, Juscelino recusou. Não queria estudantes nem militares ameaçando derrubar o governo em cada esquina. Brasília seria uma cidade de esculturas e burocratas.

- Se for assim, o senhor não vai passar de um prefeitinho de interior. - foi o argumento com que Darcy comprou o homem.

Isso me lembra outra passagem.

Brasília já era a capital havia 4 anos quando o general Mourão desceu com as tropas para o golpe. Foi para o Rio. Lá também estava despachando o presidente, que se tocou:

- Isso aqui virou uma ratoeira! - e pegou um avião para onde? Brasília. João Goulart tentou, sem sucesso, fazer da cidade recém-nascida o que JK desejou dela: um forte a céu aberto.

Seria cômico se não fosse trágico. Políticos e burocratas resistiram com unhas e dentes, ao longo dos anos 60, a largar Copacabana. Só em 1970, a mudança se consumou de vez.

Com o Congresso fechado e os adversários do regime cassados, torturados ou ameaçados, foram os militares que conseguiram fixar o governo em uma cidade sem esquinas.

Na agonia do regime, o povo fez greve em São Paulo, comício pelas Diretas no Rio. Brasília não viu mais que um quase duelo entre o presidente e seu ministro do Exército.

Quando os militares da tigrada quiseram emitir um último suspiro de balbúrdia, foi no Rio que a bomba gorou. Veio 88, e Brasília não deixou muito de ser um parque de esculturas.

Em 2011, visitei pela primeira de cinco vezes a capital. Tive a impressão de estar em outro país. Brasília em nada lembra uma cidade brasileira, parece apenas um sonho de grandeza.

Então, dois anos depois, vieram as Revoltas de Junho.

Quando vi as imagens de cidadãos brasileiros cruzando o espelho d'água, subindo a rampa e cercando o Congresso Nacional, tremi de emoção, vi o Brasil brotar em Brasília.

E pensei: nós, cidadãos brasileiros, estamos começando a perceber que, em um regime de liberdade, o desejo de cada indivíduo deve ser abrir para todos as portas do Congresso.

Pensei mal. E hoje vejo como há cidadãos desejando fechar estas portas para entregar a liberdade de cada um de nós a um homem, a uma corporação, a um regime de autoridade.

Ainda bem que, pelo menos por enquanto, isso não passa de um delírio sem apoio dos fatores reais de poder. Escrevi isso duas crônicas atrás; quero apenas acrescentar uma coisa.

O governo da vez se fez com o slogan do mais Brasil, menos Brasília. Eu ficaria feliz se em face dele se articulasse uma oposição digna e democrática, que nos lançasse o convite:

Mais Brasil em Brasília.


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