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Décimo quarto dia

021 - há dez anos, eu via isso surgir no celular e pensava na ligação da grande editora; hoje, sei que é um trabalhador de banco ou telefonia, sob a pressão torpe de alguma meta.

Mas, de umas três ou quatro semanas pra cá, quem tem me ligado sem trégua é O Globo. A cada ligação, outra voz; a cada voz, o esforçado teatro de quem precisa vender o peixe.

- Olhe, moço, escute bem, não vou reconsiderar o cancelamento da assinatura em hipótese alguma, tá certo? O melhor pra você é

- Mas o senhor é especial etc. e tal.

A inflação e a reforma da Previdência corroeram minha receita. Sobreveio o vírus, a recessão bateu à porta. Não tive outra saída senão cortar dos pés à cabeça. Ficar de tanga.

- Podemos fazer um preço assim e assado.

- Não, não e não. Não reconsidero. E não me liguem mais!

Deixaram de ligar. Uma, duas, três jornadas, e comecei a sentir falta. Não é todo dia que alguém dá o melhor de si pra passar manteiga da boa num pão que já começa a mofar.

Até que hoje... 021! E eu atendi feliz. Pois não. É o rapaz d'O Globo? Diga lá, meu amigo. Como anda de quarentena? Imagino. Pois é, eu queria correr no Açude, ver o mundo...

- Pois hoje é o seu dia, porque o senhor pode ver o mundo sem sair de casa por apenas 1,90 ao mês!
Murchei como um maracujá estragado.

Desliguei na cara do cabra, bloqueei o número e prometi a mim mesmo, para logo após a quarentena, dar a volta ao mundo em muito mais de oitenta dias, sem sequer ligar pra casa. 

Quem aí aposta seus vinténs?

*


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