Depois de onze domingos, um domingo. Por volta das três da tarde, começou a chover. Relâmpagos, trovões e aquela vontade de tomar café lendo algo mais forte que a borra.
Coei o pó, servi o café numa velha xícara de ágata e, ainda mais trancafiado pelas águas, sentei à mesa da cozinha com um dos livros que havia metido na mala em João Pessoa.
De repente, senti-me transportado a uma ilha, não sei se deserta, e ouvi uma voz de trombeta anunciando às minhas costas: "Escreve o que direi e envia às sete congregações!"
A voz vinha de um velho com olhos de fogo, pés em brasa, língua em forma de espada e sete estrelas na mão. Sua mensagem era a de um juiz severo às portas do cárcere.
Terminadas as cartas, desceu do céu um trono, em torno dos quais outros vinte e quatro tronos. Em cada qual, um velho barbudo. Então, surgiram quatro criaturas e um cordeiro.
O cordeiro tomou do primeiro velho um livro fechado e selado. À medida que rompia os selos, cavalos começaram a saltar de dentro do livro. Um branco, um ruivo, um preto, um verde.
Depois dos cavalos, uma multidão vestindo túnicas brancas e, após ela, um tremor de terra que causou escuridão, queda de estrelas e um correr de gente rochas e montanhas adentro.
Então, fez-se silêncio.
Foi quando minha mãe entrou na cozinha e quis saber que história era aquela na qual eu estava tão mergulhado. Dei-lhe o resumo acima e ela pediu que lhe contasse a continuação.
- Surgiram sete criaturas, cada qual com uma trombeta. A primeira soou, e choveram granizo, fogo e sangue. Soou a segunda, e uma montanha de fogo desabou sobre o mar.
- Ao toque da terceira, os rios se tornaram absinto. Da quarta, um terço dos astros colidiu com a Terra. Uma águia sobrevoou os céus e lamentou as trombetas ainda por vir.
- Veio a quinta, e gafanhotos com dentes de leão torturaram os seres durante cinco meses. Veio a sexta, e duzentos milhões de cavalos cuspiram fogo, fumo e enxofre nos sobreviventes.
- Com a sétima trombeta, surgiu um livrinho. A criatura o estendeu ao personagem e disse: "Coma". Ele comeu e sentiu a boca doce como mel, o ventre amargo como mirra.
Minha mãe arregalou os olhos.
- Menino, que droga é essa? Maconha, LSD, cocaína?
Eu ri.
- Não, mãe. É o Apocalipse de João.
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