Pular para o conteúdo principal

18 dias

É o que falta para o trabalho remoto acabar, segundo a previsão do tribunal. E o Smiles, farejando oportunidades, mandou um e-mail: As cidades terão outro significado.

Com ou sem quarentena, viajar não vai estar nos planos nem nos bolsos de muita gente em maio, junho, julho... mas toda gente já vai planejando isso ou aquilo pra depois da pandemia.

É o caso dos profetas que asseguram: voltaremos para um mundo diferente do que deixamos. Isso me lembra vovô quando dizia que o mundo não foi o mesmo depois da Guerra.

Mas a vida dele não mudou muito de abril pra agosto de 45. Levou 4 anos pra deixar Cajazeiras, outros 4 pra abrir negócio em Campina, outro tanto pra descobrir a Coca Cola em Recife.

Quando se deu conta de como e para onde o mundo mudara, Stalin já fora desnudado, Churchill virava um punhado de ossos em cova inglesa e o muro estava erguido em Berlim.

Sim, os processos em 2020 são mais velozes que os de 45; mas em 1945 também eram mais rápidos que em 1870. Se AI e 5G batem às portas hoje, computadores e satélites batiam lá atrás.

Tudo isso para dizer que o mundo não vai mudar, ele vem mudando desde sempre, mas a vida do indivíduo se transforma em uma freqüência distinta da marcha histórica.

E não somos todos que decidimos de comum acordo para onde nos levam os avanços da técnica, mas aqueles que estão em posição e com os poderes suficientes para tanto.

Cada um de nós vai sendo levado, com alegria ou tristeza, resistência ou entrega, otimismo ou nostalgia, ao sabor da força, da lei e/ou da propaganda. Fatalmente impotentes?

Fatalmente primatas, eu diria. Não escapamos do poder nem de seus abusos, potencializados pela técnica. Mas aí entra em cena a única salvação do indivíduo e de sua liberdade.

A boa e velha, ainda que desacreditada, política.

*



*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias. Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários. É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião. Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores. Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha. Se o presente justifica-se a si mes...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...